Nunca fui gorda

Um ponto de vista às vezes ácido, às vezes doce, sobre como nos relacionamos com os alimentos

3.3.09

Finalmente explicaram os "naturais"

Eu tinha essa dúvida há um tempão. E não adiantava ligar pro SAC pra perguntar: eles não conseguiam explicar de uma maneira convincente qual era a diferença entre os corantes e aromatizantes naturais e os artificiais. Quem me esclareceu a questão foi o canadense Joe Schwarcz, aquele que publicou o ótimo "Uma maçã por dia". Agora, no livro "Barbies, bambolês e bolas de bilhar", ele entrega quilos de esclarecimentos vindos da química, e um dos propósitos é mostrar por que estamos tão errados quando acreditamos que "químico" é um adjetivo que confere uma qualidade ruim a algo que um dia foi natural e bom. Schwarcz quer que a gente entenda que tudo nesta vida é química, do funcionamento dos nossos corpos e mentes ao que comemos, ainda que seja a cenoura mais natureba colhida há cinco minutos no fundo do quintal.

Bem, no capítulo "Goela abaixo", para o qual pulei direto por tratar da química dos alimentos, ele fala do papel de certos micróbios na produção de certos produtos. E parte do exemplo da, de novo, maçã. Schwarcz nos apresenta o ácido málico, uma substância QUÍMICA presente NATUALMENTE nas maçãs. É essa substância que dá o tom mais forte do sabor dessa fruta, incluindo a acidez. A indústria de alimentos precisa do ácido málico para fabricar sucos, biscoitos e outras coisas com sabor de maçã. Como ela consegue isso é o que eu sempre quis saber. Bem, vamos por partes.

Se o ácido málico que irá para o suco de caixinha puder ser extraído diretamente de maçãs de verdade, o rótulo do produto poderá trazer a alegação "sabor natural de maçã". Mas essa não é uma opção muito viável, porque o processo de extração do ácido málico das frutas é muito caro e nada prático. Imagine quanto custaria um litro desse suco.

A indústria costuma tirar o ácido málico de um meio de produção mais barato: fungos. O fungo Rhizopus nigricans trabalha de graça para a indústria se receber glicose em troca. Bem alimentado com glicose, o fungo fabrica ácido málico como resíduo metabólico. E de onde a indústria tira a glicose? Compra no mercado? Não. Pega de outro fungo, o Aspergillus niger, em troca de amido, que é fácil e barato de conseguir. O suco feito com esse ácido málico vindo da "barriga" do fungo ainda pode ser rotulado como natural. E por quê? Só porque fungos são seres naturais. Não interessa se a indústria usou tecnologia, máquinas e linhas de produção. Ela tem, pela legislação, o direito de rotular dessa maneira.

Só quando o ácido málico é produzido por meio de técnicas químicas comuns, nas palavras do autor, é que ele precisa ser chamado de artificial. Schwarcz acha isso um contrasenso. Porque o ácido málico é sempre ácido málico. A molécula é a mesma, a substância é sempre química. Eis a vantagem alegada por ele, portanto, para usar micróbios na produção de alimentos. Sai barato e ainda leva o rótulo de natural.

Vale a pena dar uma olhada no que ele diz sobre outros "naturais" da indústria, e não só no ramo dos alimentos. Fica claro que essa palavra tem sido usada a torto e a direito sem que o significado dela seja real. Por exemplo, alguém pode me dizer o que raios quer dizer "sanduíche natural"?

2.3.09

Problemas com gelatina

Reproduzo aqui comunicado à imprensa da Associação Pro Teste:

"A Pro Teste Associação de Consumidores avaliou 11 pós para gelatina sabor morango: quatro na versão tradicional, quatro na versão diet e três na versão zero. A conclusão foi que estas gelatinas não devem ser consumidas por crianças (nem mesmo aquelas que têm desenhos no rótulo para atrair os menores).

Os problemas encontrados foram: açúcar em excesso, edulcorantes (adoçantes) em duas marcas que já continham açúcar, e de um corante artificial relacionado a distúrbios no público infantil. Adultos podem consumi-las, mas com moderação. Já entre as gelatinas sem açúcar, todas foram bem avaliadas.

Não existe no Brasil uma legislação específica para gelatinas em pó. A PRO TESTE avalia que a criação de normas que regulem esse alimento é fundamental para a definição de alguns parâmetros, como limite de açúcar e quantidade de colágeno e proteína, a fim de que as gelatinas sejam produzidas dentro de padrões de qualidade.

A quantidade excessiva de açúcar pode contribuir para a obesidade infantil, além de acostumar as crianças ao paladar doce. Quanto a presença do corante artificial Amarelo Crepúsculo, já existem leis na Europa proibindo o uso desse corante, que está associado à hiperatividade.

A adição de edulcorantes (adoçantes) não é recomendada no caso de alimentos destinados ao consumo por crianças e gestantes. O consumo é indicado apenas por restrição alimentar e com acompanhamento médico.

As análises apontaram que estão sendo adicionados edulcorantes em gelatinas tradicionais sem que a informação apareça em destaque no rótulo. E as duas testadas que apresentam esse problema fazem uma propaganda totalmente voltada para o público infantil em seus rótulos. A Royal traz na embalagem o personagem Bocão. A Dr. Oetker tem uma promoção para ganhar mochilas em forma de animais de pelúcia."

26.2.09

Acabou o leitinho da criança

Então era verdade. Passados alguns meses de suspeita e observação, confirmei. Sou intolerante à lactose, o açúcar presente no leite e nos queijos. Isso explica por que meu intestino andava tão zoado. Sem ser digerida, a lactose serve de comida fácil e abundante para as bactérias do meu intestino, que na hora de se alimentar fermentam esse açúcar e liberam... you know... gases! Dentro de mim. Agora chega, né? Vou cuidar melhor do meu panduzinho.

Agora tenho duas alternativas: dar adeus ao meu leitinho querido com cereal, ao creme de ricota no pão de manhã e às pizzas com mussarela ou continuar saboreando essas tradicionais delícias e passar a digeri-las com a ajuda de cápsulas de lactase, a enzima que eu não tenho (ou tenho insuficientemente) e que consegue quebrar a lactose para mandar glicose pro meu sangue.

Meu nutrólogo sugeriu algumas substituições. Uma das mais saborosas eu já venho testando há alguns meses. É uma pasta de tahine com melado. Misturam-se os dois na mesma proporção numa vasilha de vidro que pode ser armazenada fora da geladeira e pronto: tem-se um substituto para os laticícios de passar no pão. E é muito gostosa. A outra sugestão para o pão são pastas temperadas de tofu, batidas no liquidificador com alguma coisa que dê sabor. Eu testei uma vez só com espinafre e alho e descobri que exagerei no alho.

No carnaval, conheci uma mulher que também evita os laticínios e toma todas as tardes uma vitamina de leite de soja com frutas. Ela mistura tantas frutas diferentes (claro, em pequenas porções) que o gosto da soja quase some. Quase. Seria uma alternativa para o leite matinal. Se bem que, segundo o nutrólogo, o iogurte não vai me fazer mal.

Mas ainda fico pensando no que será das minhas sextas-feira sem pizza e das minhas tardes de domingo sem farinha láctea com leite. O médico me indicou uma pizzaria vegana que ele garante que é boa (Lar Vegan, em Sampa) e me passou umas receitas para me suprir melhor de outros nutrientes que estão faltando, como ômega 3, ferro e vitamina B12. Terei de tomar uma suplementação por três meses e depois repetir parte dos exames para ver se essas falhas nutricionais foram corrigidas.

E ainda me perguntaram: nutrólogo, você? Mas você come tão direitinho! Sim, é verdade que eu procuro me alimentar direito e que a maior parte dos exames veio com ótimos resultados. Colesterol, triglicérides, insulina, vitamina D e outras coisas importantes estão em perfeito equilíbrio. Mas o leite talvez esteja atrapalhando a absorção do ferro. Até a absorção do cálcio o leite dificulta, no meu caso. Mas meu nível de cálcio está bom porque retiro de vegetais. Veremos depois da suplementação e da suspensão dos laticínios como é que fica. E sem chorar sobre o leite derramado de propósito no ralo da pia, na despedida.

18.2.09

Vitaminas? Só as do liquidificador

Novos estudos questionam a eficácia da ingestão de pílulas de vitaminas na prevenção e no tratamento de problemas de saúde, como o câncer. Matéria no New York Times desta segunda-feira diz que metade dos americanos consome suplementos alimentares diariamente, gastando com eles 23 bilhões de dólares por ano. Essa dinheirama pode estar sendo desperdiçada. Um estudo de oito anos com 161 mil senhoras mostrou que não houve benefício no uso contínuo de vitamínicos. A preocupação dos pesquisadores é com o excesso de vitaminas. “A maioria dos antioxidantes é também pro-oxidante", disse o pesquisador Peter H. Gann, do departamento de patologia da Universidade de Illinois, em Chicago. "No contexto certo e na dose certa, eles podem ser capazes de causar problemas em vez de preveni-los", explicou Gann.

As vitaminas continuam sendo importantes para a saúde, afirmam os pesquisadores. Mas talvez não na forma de cápsulas. A suspeita, que não é nova, é de que os benefícios das vitaminas para a saúde não se devam a uma vitamina isoladamente, mas ao conjunto das substâncias presentes nos alimentos. Ou seja, uma dieta balanceada seria mais do que suficiente para manter as pessoas longe das doenças provocadas por deficiências nutricionais. E certamente muito mais barata.

16.2.09

O casamento do meu melhor namorado

E lá se foi ele. Bom partido pra chuchu. Vegetariano, desses que gostam de cozinhar. Conheceu a moça na minha casa, numa festinha, num dia de fossa, vários fins de namoro depois daquela conversa com alguma cerveja em que decidimos seguir cada um para o seu lado, sem no entanto abrir mão de uma amizade ótima que vale a pena manter. Veio tentar se animar na festinha e deu nisso. Tomamos vinhos, comemos quitutes leves com pastas de azeitona e grão de bico e frutinhas. Então saiu rapidinho da fossa, engatou namoro com a moça bonita e em menos de um ano, casados. O amor é lindo. O casamento foi lindo. E vegetariano, como o noivo. A festa teria valido a pena só pelo bufê, não tivesse sido muito bacana também pela originalidade da cerimônia, pela beleza da decoração na casa da mãe da noiva e pela presença de várias pessoas legais.

Na primeira sala, um jardim de doces impecavelmente embrulhados em envelopinhos de papel. Certamente eram todos muitíssimos saborosos, mas era impossível provar todos ao final da vesta depois da fartura de gostosuras salgadas (e alcoólicas) que vieram antes. Então a gente seguia pelos cômodos, ia cumprimentando as pessoas, aceitando taça de vinho e, muito curiosamente, os canapés.

Ah, os canapés. Um melhor que o outro. Primeiro, um de tomate com ricota e alecrim que era meio doce e meio salgado. Surpreendente. Depois, um de homus. Mais tarde, uma cestinha feita de gergelim recheada de queijo de cabra. Não sei quantos repeti de cada um e dos outros todos que passaram por mim, entre um gole e outro de vinho branco ou de caipirinha de frutas vermelhas (lindas!). Uma pausa no bate-papo para assistir aos discursos (dos amigos, pois não houve padre, pastor ou juiz) e, logo depois, o jantar. Uma salada de grãos com verdura num pote de vidro transparente seguida de uma polenta cremosa com molhos (de tomate ou gorgonzola, com pesto e queijo ralado), servida numa tigela de louça esverdeada. Tudo uma delícia.

Eu nem tinha me ligado de que o cardápio era vegetariano, até o nutrólogo que foi padrinho do noivo vir comentar sobre os prazeres que os carnívoros não acreditam ser possível tirar dos vegetais. Na comparação com os tradicionais (e muito gordurosos) salgadinhos de festa, como coxinhas e empadinhas, não tem nem comparação. Os canapés do casamento do meu melhor (ex)namorado bateram de longe qualquer tradição. E, para quem ainda duvidava, deram mais uma evidência de que esse casal acertou na união.

Parabéns aos noivos!

11.2.09

Almoço da mama

Uma pesquisa da Knorr (marca de caldos industrializados pertencente à Unilever) feita em 2008 com mais de 6 mil pessoas em 12 países, incluindo o Brasil, procurou avaliar os efeitos das refeições em família - e em casa - na vida das pessoas. A conclusão foi que comer em família ajuda no aprendizado das crianças, torna as pessoas mais alegres e contruibui para um consumo regular de frutas e hortaliças. A parte brasileira da pesquisa levantou que 49% das paulistanas jantam em família todos os dias. Diz o texto de divulgação: "A mulher moderna brasileira gosta de cozinhar para sua família. Porém, gosta de fazer pratos simples, sem ingredientes ou medidas complicadas. Ainda assim, 59% das brasileiras veem o ato de cozinhar como uma obrigação. Para elas, mais importante do que a preparação em si é compartilhar a refeição com a família, receber os elogios e ser valorizada pelo seu trabalho. A comida do dia-a-dia tem grande carga emocional, antes de ser saudável ou prática. Para 85% o momento da refeição é de prazer." O material diz ainda que 30% dos entrevistados (nos 12 países) dizem que trabalhar até mais tarde os impede de comer com a família e 28% alegam conflito de horários.

A primeira coisa que eu pensei ao ler esses dados foi: caramba, e quem não mora com a família? E quem cozinha só pra si? Será que deveria chamar sempre alguém pra comer junto e falar dos problemas no trabalho e das dificuldades do curso de pós-graduação? Será que cachorro e gato contam como família?

Tem dia, lá em casa, em que eu fotografo meu prato pra registrar o que só eu vi e, quem sabe, um dia, mostrar pra alguma amiga que estou melhorando na cozinha. Bem, só de ver a foto ela não vai poder conferir o sabor, mas pelo menos ficará provado que eu tento fazer meu papel de mãe que escolhe com carinho os ingredientes e as receitas e se preocupa com a saúde da família e se desculpa quando queima o arroz. Mesmo não sendo mãe de ninguém e não tendo gatos nem cachorros.

Deve ser por isso que adoro receber visitas pro almoço de domingo...

22.1.09

Crianças, tapem os ouvidos

Finalmente decidiram. Para não ceder totalmente às pressões de gente que queria banir da propaganda o incentivo ao consumo de guloseimas pelas crianças, a indústria de alimentos tomou a iniciativa de adaptar suas produções publicitárias desse tipo de produto aos adultos. Em vez de usar uma linguagem que atraia o público intantil, as novas propagandas deverão mirar a decisão de compra dos pais. É o que relata matéria da Folha do último dia 17. A íntegra está aberta só para assinantes.