20 de mar de 2013

O que a mídia não diz sobre sua saúde

Para proteger seus patrocínios, a imprensa omite informações importantes


Nada contra as revistas, os programas de TV e agora os canais de conteúdo das empresas no Facebook darem dicas de saúde pautadas nas atitudes individuais. Eu vivo dando as minhas. O problema é fingir que é só das escolhas, atitudes e comportamentos individuais que depende a saúde das pessoas. Não é. 


Existe uma coisa chamada ambiente. Se a gente vive num ambiente poluído, vai adiantar só lavar as mãos e as verduras para evitar contaminações? Não. Ar, água e solo contaminados deixam pessoas doentes e as matam mesmo quando elas não querem. Por isso não dá para falar em prevenção de contaminações sem saneamento básico. 

Se a gente vive num ambiente em que predominam produtos comestíveis do tipo junk superbaratos e os alimentos frescos saudáveis estão inacessíveis, caros demais, vai adiantar ouvir os conselhos do Márcio Atalla no Fantástico? Difícil. As pessoas tendem a ir em direção ao que está à mão, certo? Se tiver que pegar ônibus, trem ou barco pra buscar verdura fresca e fruta para matar a fome das crianças, é mais negócio comprar o sheetos ali da esquina. Quer dizer, se o governo e o mercado de alimentos não fizerem sua parte para garantir oferta acessível de comida decente para todo mundo, não há dica de dieta que dê conta de conter os problemas nutricionais que assolam o mundo. 

Então, quando sai um relatório internacional que mostra que as empresas que mais vendem comida industrializada no mundo estão cercando as pessoas de comida ruim e descumprindo acordos em que se comprometiam a não desfavorecer o aleitamento materno em nome da venda de fórmulas infantis, entre outras irresponsabilidades, é de se esperar que a imprensa fale disso em alto e bom som, né? Mas não. Isso aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, mas a imprensa brasileira ainda não tocou no assunto. Só eu, até agora, fui atrás dessa história. 

É por isso que eu tendo a achar que essa história de bater na tecla do comportamento individual é de propósito. Porque denunciar o anunciante não é negócio, né? Mas deixar as pessoas se sentindo culpadas por todo tipo de toxina que elas respiram ou ingerem é um puta serviço público? 

O bom de usar o exemplo norteamericano é que lá as coisas estão mais claras e a imprensa não cala a boca como a daqui. A merenda escolar de lá é tradicionalmente um lixo. As crianças adoram, mas o valor nutricional é de chorar. Leite adoçado todo dia, batata frita liberada, salada só se quiser (e quem quer salada quando o açúcar, o sal e a gordura já dominaram o paladar?). Ann Cooper e Jamie Oliver vêm tentando modificar a situação, tanto educando pais quanto fazendo campanha para o governo mudar a merenda. Quer dizer, há um esforço combinado. Agora, imagina se a imprensa de lá fizesse de conta que as crianças americanas estão obesas só porque as mães não as ensinam a comer direito, fingindo que os contratos entre a indústria de alimentos e os setores governamentais que compram a merenda não tivessem nada com isso?

Será que a fonte de informação que você consome considera de forma abrangente os fatores que influenciam a sua saúde e busca identificar todos os responsáveis ou fica insistindo que é você que tem de resolver tudo? Será que ela informa você de todos os meandros que tornam nosso ambiente alimentar o que ele é hoje ou prefere omitir essas coisas para continuar sendo sustentada pela indústria que domina esse ambiente?

Pense nisso, e boas leituras. 

Ah! Em breve falarei mais do relatório mencionado lá em cima. A Página22 vai dar uma nota (minha) no mês que vem. Aguarde. 

3 comentários:

Silvia disse...

Francine, excelente artigo! O relatório a que você se refere é um publicado pela The Economist? O Movimento Infância Livre de Consumismo fez uma resenha sobre ele, você viu?

http://infancialivredeconsumismo.com/index.php/alimentacao-saudavel-quando-o-governo-deve-intervir/

Francine Lima disse...

Oi, Silvia. Obrigada pelo comentário e por compatilhar o artigo do Infância e Consumo.
O relatório ao qual me referi é outro. Chama-se Access to Nutrition Index. Eu publiquei uma matéria grande sobre ele na Página22 em dezembro: http://pagina22.com.br/index.php/2012/12/em-fogo-alto/

Silvia D. Schiros disse...

Obrigada, Francine, vamos ler!

Aproveitando a deixa, convido você a conhecer a fan page do Movimento Infância Livre de Consumismo no Facebook:

www.facebook.com/InfanciaLivredeConsumismo