10 de abr de 2013

Relatório expõe responsabilidade da indústria sobre a nutrição


Pela primeira vez, um estudo sistemático examinou em que medida as corporações de alimentos estão comprometidas com a nutrição de seus consumidores. Divulgado em 12 de março, o relatório da Access to Nutrition Index (ATNI) – uma iniciativa da Aliança Global para Nutrição Aprimorada (Gain, na sigla em inglês), da Fundação Bill e Melinda Gates e do Welcome Trust – mostra que a “Big Food”, como é conhecido o grupo das grandes multinacionais de alimentos, está falhando nesse quesito. Das 25 maiores empresas do mundo avaliadas, a maioria mostrou resultados insatisfatórios (mais na reportagem “Em Fogo Alto”, edição 70).


O relatório partiu de documentos disponibilizados pelas próprias empresas para examinar compromissos, práticas e desempenhos em políticas corporativas globais relacionadas à nutrição, com base em recomendações internacionais. Entre os sete quesitos avaliados estão os esforços para melhorar o perfil nutricional e a rotulagem dos produtos; o cumprimento de acordos envolvendo o marketing de alimentos destinados ao público infantil (mais em nota ao lado) e a facilitação do acesso a alimentos saudáveis em comunidades pobres. Em escala de zero a 10, a maioria das empresas teve pontuação geral abaixo de 5, com exceção de Danone (6,3), Unilever (6,1) e Nestlé (6,0). Em 20º, ficou a BRF (antiga Brasil Foods), com 0,6.





Quem publica relatórios corporativos acabou se dando melhor. Segundo Inge Kauer, diretora-executiva da ATNI, houve quem levasse nota baixa por não ter informação suficiente sobre suas políticas nutricionais. Mas isso poderá ser corrigido nas próximas edições do relatório, que será bienal. Ainda assim, segundo Inge, está claro que o setor precisa se empenhar mais. “Essas 25 empresas são responsáveis pela alimentação de boa parte do mundo. Elas têm a obrigação de contribuir mais no combate à desnutrição e à obesidade.”

E as obrigações tendem a aumentar. Duas semanas antes da ATNI, a Oxfam havia lançado a campanha “Por Trás das Marcas”, expondo falhas nas políticas socioambientais nessa mesma indústria de alimentos (mais em goo.gl/ieLPP). A vigilância está só começando. 



NUTRIÇÃO INFANTIL EM QUESTÃO


O aleitamento materno exclusivo nos seis primeiros meses de vida, recomendado pela Organização Mundial da Saúde, é um dos fatores que a ATNI considera fundamentais para evitar tanto a desnutrição quanto a obesidade. E até nisso a indústria de alimentos tem sua responsabilidade, já que fabrica fórmulas infantis.

A preocupação da ATNI nesse quesito é evitar que os fabricantes adotem estratégias de marketing que promovam esse tipo de produto como nutricionalmente superior ao leite materno e entre mães que não precisam de substitutos, fato já ocorrido mais de uma vez e vetado pelo Código Internacional para o Marketing de Substitutos do Leite Materno, de 1981.

Segundo a nota de divulgação para a imprensa, embora demonstrem comprometimento com a nutrição de seus consumidores, foi por violar esse código que Danone e Nestlé, duas das maiores marcas de alimentos infantis, receberam nota abaixo de 7. Em resposta à PÁGINA22, a Danone ressalta sua dedicação a produzir alimentos nutritivos, considerando-se merecedora do topo do ranking. “Resultados como este refletem o quão inserido o tema da nutrição está dentro da empresa e confirmam que estamos no caminho certo”, diz Ana Tasca Del’Arco, gerente em saúde e nutrição
da marca. 

A questão que fica é se avaliações como essa podem de fato tornar as práticas no setor de alimentos mais responsáveis. Além de o relatório premiar esforços que as empresas mais endinheiradas já demonstram, como a publicação frequente de relatórios corporativos, críticos desconfiam do fato de a Gain ter Unilever, Pepsico, Coca-Cola e outras marcas como parceiras: seriam as próprias empresas indiretamente avaliando-se e aprovando a si mesmas?

Copresidente da International Baby Food Action Network (IBFAN), organização de proteção à alimentação adequada na infância, a britânica Patti Rundall teme que a ATNI seja, na verdade, um instrumento de endosso para as grandes marcas. “É uma tática esperta que premia empresas pelas realizações erradas, pois desvia nossa atenção do que é urgente: legislação forte com monitoramento independente.”

Pelo menos, a iniciativa está gerando debate. Inócua não há de ser.


(Publicado originalmente em http://pagina22.com.br/index.php/category/revista/73/)

2 comentários:

Anônimo disse...

Fran querida, adoro ler o que vc escreve. Saudades de vc. Bjs Lu Vicária

Francine Lima disse...

Lu, sua linda. Saudades também.