20 de ago de 2009

O que sobra das habilidades depois dos 30?

Anos atrás, vi uma amiga com dificuldades em montar numa bike porque tinha ficado muito tempo sem pedalar. Depois de uns três tombos, ela conseguiu, mas ainda sem muita segurança. Parece que essa memória não traz tudo de volta de uma vez. O corpo vai lembrando e aprendendo devagar. Quando comecei a fazer ginástica, na adolescência, o professor me disse que eu tinha boa postura por causa do balé que fiz na infância. Mas quando voltei ao balé pra ver se ainda gostava, aos vinte e poucos, tive de aprender quase tudo de novo. Mal lembrava os nomes franceses dos passos básicos e custava a acompanhar o resto da turma, sob o olhar severo do professor. Ele gostava mesmo era das meninas com menos de 20 anos que conseguiam levar a canela até a orelha.

Quando resolvi fazer aulas de circo, aos 29, me disseram que minha facilidade para algumas acrobacias certamente vinha da iniciação em ginástica olímpica aos meus 8 ou 9 anos de idade, por mais curta que ela tenha sido. E, sem dúvida, do balé também. Hoje estou com 33 e me pergunto até quando pode durar essa memória corporal das minhas atividades da infância. Será que eu poderia voltar a dar piruetas e saltos mortais tão facilmente agora ou daqui a mais vinte anos quanto eu podia no auge da juventude? Sem me machucar? Será que a gente tem direito a fugir um pouco da musculação e da corridinha de sempre, que nos mantêm em forma e com saúde, para nos aventurar em movimentos que desafiem também nossas habilidades e nos deem prazer?

Fui testar.

Depois de quatro anos afastada do circo (fiz aulas por menos de um ano em 2005), apareci na academia no último sábado disposta a me deparar com minhas novas limitações provavelmente adquiridas com os últimos aniversários. Eu já havia conversado com outra trintona que também tinha desistido do circo em nome da idade, com medo de se contundir, e estava certa de que correria mais riscos do que antes. Já cheguei avisando ao professor (um menino de 24 aninhos) que fazia quatro anos e meio que eu não pisava num tatame. Eu queria que ele me visse como café com leite e "me desse um desconto" se eu errase demais. Perguntei se havia uma idade máxima para o circo, e ele me respondeu "90". Mas é claro que ele não estava pensando em acrobacias, e sim em malabares. E chamou uma das alunas mais habilidosas da turma para tirar sarro da minha pergunta. "Selma, ela está dizendo que é velha para o circo." E em seguida Selma jogou na minha cara que tinha 48 anos.

Passei a aula inteira observando a Selma. Corpão bonito, cabelo tingido de amarelo (porque mulher não envelheve: fica loira), bunda dura, cintura no lugar, lápis contornando os olhos e execuções quase impecáveis de saltos mortais, reversões e outras acrobacias relativamente simples. Nos intervalos entre um salto e outro, ela ainda ensaiava um joguinho solo de capoeira, outra de suas recentes paixões. Disse que estava ali fazia dois anos só. "E já aprendeu tudo isso?", perguntei. Ela sempre me sorria uma resposta que fazia parecer que aquilo tudo era muito fácil. E ainda profetizou: "É isso que rejuvenesce".


Acrobacia não é meu forte. Em 2005, me saía melhor no chão, me equilibrando de cabeça para baixo, subindo nos ombros de alguém, nos primórdios do que eles chamam de pirâmide. Saltar me dá mais medo. Mas, neste sábado, a proposta era saltar do minitrampolim para o colchão alto, de várias formas. O professor me encorajava: "Vai, Fran. Você sabe". Ele acreditava nisso porque viu que eu fiz bem o começo da aula. Mas o começo da aula não tinha saltos, veja bem. O esquema era assim: a gente fazia do jeito que saísse e depois ele dava umas dicas para errar menos. Ainda bem que havia um colchão de pé na parede para a gente não quebrar a cara, porque a chance de errar o salto e meter o nariz no lugar errado não é pequena quando a gente ainda não tem a técnica.

Até aí, nenhuma diferença para minha primeira aula de acrobacia quatro anos e meio atrás. Me senti tão desastrada quanto. Eu não sei com que ritmo teria acontecido meu aprendizado se eu tivesse continuado as aulas desde aquela época até hoje, mas é quase certeza que agora ele vai ser mais lento, se eu decidir me dedicar como a Selma. Ela levou dois anos para conseguir o que eu vi, tendo o balé na juventude como bagagem. Se depois de dois anos ela consegue fazer mortal de frente, talvez eu possa relembrar meus tempos de ginástica olímpica em menos tempo, hein?

Enchi o professor Allan de perguntas depois da aula. Ele me confirmou que, quando a gente interrompe um treinamento, fica mais difícil alcançar o mesmo desempenho depois. E, depois dos 30, o corpo responde mais lentamente mesmo. A musculatura tem um tempo maior de "volta à calma" e não se restitui após um esforço tão rapidamente quanto fazia antes dos 25. Embora a ideia de voar do trampolim depois dos 50 pareça linda, o risco vai aumentando. Especialmente se a gente descuida da alimentação. Porque o esqueleto ali está sempre batendo no chão com força. Se estiver poroso, por falta de cálcio, pode ir acumulando microfissuras e quebrar por estresse. Credo!

O teste valeu para eu acreditar que pelo menos até os 50 ainda tenho grandes chances de me divertir bastante, desde que tome os devidos cuidados. Mesmo que eu decida adiar um pouco mais minha volta ao tatame. Tenho uma amiga de quase 40 anos que há dois meses voltou às aulas de jazz depois de 15 anos longe da dança. Eu pensei: Caramba! Jazz?! Aquela coisa engraçada que minhas colegas ensaiavam no recreio na sexta série? Aos 39?! Quis pagar para ver. Fui lá ver a Renata se preparando para sua primeira apresentação. Imagino as duas filhas dela assistindo da plateia, exatamente como a mãe dela deve ter feito quando ela era novinha. Naquela época, de tão forte o chute, ela meteu o pé com tudo na testa. Bem, agora a perna da Renata provavelmente não vai subir tanto. Seu corpo já não é o mesmo, claro. Ao final da aula, ela estava exausta, mas feliz por ter esquecido os problemas do trabalho por mais de uma hora. Ainda é cedo para prever até onde ela vai. Mas se pode adivinhar que aquele chute na testa está ali, na memória da perna dela, prestes a devolver aos poucos a dança que ainda lhe pertence. Se o corpo tem memória, eu acho que o melhor a fazer é não deixar que ele fique só na lembrança.

(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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