3 de dez de 2009

Ginástica em casa

Sempre duvidei dessas propagandas que mostram pessoas sorridentes se exercitando na sala, na cozinha, no jardim. Normalmente há uma geringonça envolvida na história, e atribui-se a ela a incrível e repentina boa forma da pessoa no vídeo. Será que a presença de uma maquininha “milgrosa” dentro de casa é suficiente para um sedentário se transformar num malhador voraz?

Anos atrás, conheci uma adolescente gorda que resolveu tentar emagrecer comprando uma esteira ergométrica. Ela pôs aquele trombolho enorme no quarto dela e, diante do monstro, sentia-se forçada a caminhar sobre ele diariamente por pelo menos meia hora. Eu era amiga da irmã dela – que também estava um pouco acima do peso, mas demorou bem mais a tomar providências – e visitava o apartamento com frequência. Por algum tempo, pelo menos, sei que a garota manteve o hábito de se exercitar na esteira. Mas seus hábitos alimentares eu não vi mudar muito. Com a mãe quituteira – e também fora de forma – que ela tinha, deixar de comer guloseimas calóricas parecia um pouco mais difícil.

Um pouco mais tarde, convivi com uma jovem que tinha seus segredinhos. A maioria das meninas do pensionato dependiam do dinheiro dos pais para se sustentar na capital enquanto cursavam a faculdade e quase ninguém tinha grana pra academia. Mas aquela estudande de direito exibia umas coxas fortes invejáveis e um abdome duro que só muita ginástica seria capaz de garantir. Depois de algumas conversas na cozinha, ela contou que fazia seus agachamentos e seus abdominais ali mesmo ao lado da cama, nos momentos em que sua companheira de quarto estava ausente. Fiquei admirada com a determinação daquela moça. Aparentemente, a ginástica solitária funcionava perfeitamente para ela.



Mas isso não funciona com todo mundo. Uma amiga com quem dividi apartamento algum tempo depois se animou muito com uma dessas propagandas de TV e comprou um aparelho que supostamente ajuda a fazer exercícios abdominais no colchonete. Tudo que o aparelho faz, na verdade, é ajustar a postura do tronco, fixando a posição do pescoço e das mãos. A vontade de se exercitar continua vindo da pessoa mesmo. Minha amiga guardava o aparelho debaixo da cama, e ali ele ficava a maior parte do tempo. Não eram muito frequentes as vezes em que ela tomava a iniciativa de tirá-lo de lá.

Além dessas histórias que presenciei, já vi e ouvi falar de vários equipamentos de fitness acabaram rebaixados à função de cabide. Nem todo mundo consegue se manter motivado a fazer exercícios sozinho, por conta própria, sem ninguém para dar uma mãozinha. Eu mesma nunca fui boa nisso. Tentei algumas vezes, em períodos de vacas magras, mas só conseguia correr na rua ou pedalar. Agachamentos e abdominais no tapete da sala? Era tentar uma vez e desistir.

Um jeito que me parece bacana de entrar em forma fora de uma academia é o que eu venho acompanhando há alguns meses. Uma pessoa bem próxima de mim era sedentária até seis ou sete meses atrás. A convite de um amigo que estava precisando mudar de vida – e de um incentivo – , aceitou começar a corrrer no parque duas vezes por semana. O amigo se lembrava de uma série de exercícios que havia aprendido numa academia algum tempo antes, e os dois passaram a executá-los no setor de equipamentos rústicos do parque. Rústicos porque são pedaços de troncos de árvores e tábuas de madeira imitando as barras e bancos de uma sala de musculação. A parceria durou cerca de dez sessões, e o amigo desistiu. Voltou para a velha vida de sempre e abandonou aquele que o havia incentivado.

O incrível foi que esse cara que eu conheço bem não desistiu. Sem o amigo, continuou correndo e fazendo musculação rústica no parque com uma assiduidade admirável. No começo, ia de manhã. Mas logo percebeu que estava difícil acordar cedo e transferiu a malhação para o começo da noite, depois do trabalho. Depois de uns três meses, lá fui eu dar palpite. Disse que aquela série de exercícios que ele havia aprendido, por melhor que fosse (eu não sei se era boa), não deveria durar para sempre. Era preciso variar as séries de tempos em tempos (uma quebra indicada para iniciantes é a cada três meses), senão o corpo se acostuma e os resultados vão diminuindo. Que tal se ele procurasse algum tipo de orientação profissional? Nem que fosse um livro ilustrado que desse indicações de exercícios e da execução corrreta...


Eu não imaginava que minha sugestão cairia tão bem. Eu sabia que esse cara odiava a ideia de entrar numa academia ou contratar um personal trainer. Ele tinha preconceitos demais para aderir ao mundinho fitness. Mas ele gostou da ideia de ser orientado para não perder os resultados que havia conquistado. Com sua rotina solitária no parque, ele já havia perdido quatro quilos, já exibia contornos mais bonitos nos braços e já começava a ver gomos se formando no abdome. Imagine o que ele conseguiria com um professor.

Indiquei um profissional da academia que eu frequentava mesmo, só pra ele conversar. Eles combinaram a primeira conversa no parque mesmo e foram com a cara um do outro. O professor observou como ele fazia os exercícios e propôs algumas alterações. Meu amigo seguiu se exercitando sozinho com as novas dicas. Os encontros com o professor eram esporádicos e serviam para ajustar o treino. Algumas sessões depois, meu amigo ganhou planilhas de corrida e aprendeu exercícios mais avançados. Ao perceber que, com a ajuda do professor, ele tinha mais garra para terminar as séries e podia avançar nas técnicas muito rapidamete, na medida em que o professor via que ele melhorava, meu amigo resolveu contratá-lo para sessões semanais. Na quarta-feira ele recebe todo o incentivo e a orientação de que precisa, e em outros dois dias na semana faz tudo por conta própria.

Cada pessoa tem seu jeito de lidar com a própria vontade e com a própria preguiça. Eu só consigo fazer ginástica se tiver um lugar com um professor para frequentar, com pessoas para bater papo e me distrair. Há pessoas que, mesmo para atividades solitárias como a natação, só permanecem motivadas quando se veem como parte de um time. Se você é do tipo que desiste rápido, para que se enganar comprando uma máquina que vai juntar pó no canto da sala? Automotivação é fundamental para entrar e ficar em forma. Sem ela, eu não iria religiosamente à academia há 17 anos. Mas é preciso saber a que somos capazes de nos motivar e buscar os recursos necessários para transformar a intenção em hábito indispensável.


(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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