11 de mar de 2010

Quem mamou no peito é mais saudável?

Estudos sugerem que a alimentação correta nos primeiros meses de vida pode evitar a obesidade


Numa recente reunião de família, uma prima mais velha comentava os conselhos alimentares que ela tinha ouvido da minha mãe décadas atrás, antes de eu existir. Segundo minha prima, aquela que me trouxe ao mundo era, nos anos 70, uma mocinha bonita e muito vaidosa, criada em uma cidadezinha modesta no interior do estado de São Paulo e recém chegada à capital, cheia de discursos sobre alimentação saudável, cuidados naturebas com o cabelo e palpites do gênero. Minha prima, filha da cidade grande, se admirava da suposta sabedoria da namorada do tio dela. Ao ouvir essa história, ri de mim mesma. Não, esta colunista não é obra do acaso. Tive mesmo a quem puxar!



Minha mãe foi uma jovem inquieta. Largou a cidadezinha pequena determinada a fazer faculdade, tornar-se uma profissional de comunicação, conquistar independência, fazer carreira, lucrar com sua criatividade. Mas não foi bem o que aconteceu. Logo casou, arrumou um emprego estável e, sem querer, engravidou. Como tantas mulheres de sua época, ela jamais aceitaria ser somente mãe. O sonho de crescer no mercado de trabalho em pé de igualdade com os homens e de aprender sobre tudo era seu grande propósito na vida. Não poderia abandoná-lo. Como conciliar a maternidade com tamanha ambição?

O jeito foi fazer o que dava. Minha irmã, mais velha, e eu fomos amamentadas no peito por apenas três meses. Logo fomos apresentadas à mamadeira e às fórmulas infantis, uma versão de alimento bem mais prática e que podia ser fornecida pelo pai ou pela empregada enquanto a mãe trabalhava fora.

Três décadas depois, as mulheres conquistaram muito mais espaço dentro das empresas. Mas parece que ainda não conquistaram de volta o direito de amamentar. Embora a Organização Mundial de Saúde e inúmeros estudos recomendem que todo bebê seja alimentado somente com leite materno nos primeiros seis (e não três nem quatro) meses de vida, no Brasil a licença-maternidade obrigatória ainda é de quatro meses (a não ser para as funcionárias públicas federais, que segundo o Ministério da Saúde já gozam de licença de seis meses). A mãe que faz questão de seguir as recomendações médicas tem de fazer verdadeiras maluquices logísticas para continuar amamentando depois de voltar ao trabalho. O mais comum, no entanto, é que as trabalhadoras abandonem o aleitamento antes da hora.

Uma das preocupações dos pediatras em relação ao período de amamentação é a obesidade. É que, segundo diversos estudos, o leite materno é um fator de proteção do bebê contra um aumento exagerado de peso corporal depois que ele crescer. Por exemplo, um estudo realizado na Alemanha em 1999 com mais de 130 mil crianças mostrou que a prevalência de obesidade na infância era menor para as crianças que haviam mamado no peito da mãe por mais tempo. Assim: entre as crianças que nunca mamaram no peito, a prevalência de obesidade observada foi de 4,5%. Entre as que mamaram exclusivamente no peito por dois meses, a prevalência de obesidade foi de 3,8%. O índice caiu para 0,8% entre as crianças amamentadas por mais de um ano.

Também tem sido investigada a associação entre o aleitamento materno e o risco para doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, ou seja, alguns dos males mais inimigos saúde pública no mundo atualmente.

As conclusões da ciência mudam o tempo todo. Conforme as variáveis consideradas nos estudos, as afirmações de um podem ser derrubadas por outro. Mas a recomendação de amamentar exclusivamente por pelo menos seis meses e preferivelmente até os dois anos de idade do bebê de forma não exclusiva permanece quase inalterada nas últimas décadas.

Os benefícios de seguir essa recomendação, segundo o Ministério da Saúde, são inúmeros: "Os bebês que recebem leite materno exclusivamente estão mais protegidos contra doenças, principalmente diarréia e pneumonia. Crianças que não mamam no peito têm 25 vezes mais chance de morrer por diarréia. Com relação à pneumonia, crianças não amamentadas nos primeiros três meses de vida têm 61 vezes mais chance de serem hospitalizadas do que as crianças em aleitamento materno exclusivo. Da mesma forma, as crianças amamentadas têm menor risco de desenvolver otite e alergias. A longo prazo, as crianças que mamam exclusivamente por seis meses estão mais protegidas contra doenças crônicas como obesidade, diabetes melito tipo I, doença de Crohn e linfoma. O leite materno contém todos os nutrientes necessários para o crescimento e desenvolvimento adequados da criança, além de ser facilmente digerido. Além disso, o ato de amamentar é o primeiro momento de carinho entre mãe e filho e favorece a ligação entre eles. 

Por tudo isso, geração após geração, os pediatras procuram convencer as mães a amamentar por mais tempo. Não é uma tarefa fácil, especialmente para quem tem a agenda tomada por outras obrigações. Também não é uma responsabilidade que depende só das mães, uma vez que elas precisam da autorização de seus empregadores para cumprir com mais esse compromisso. Segundo o Ministério da Saúde, o projeto que amplia a licença-maternidade obrigatória de seis meses para todas as trabalhadoras já foi aprovado na Câmara.

A partir daí, a amamentação dependerá mesmo é da vontade das mães assalariadas - salvo em caso de problemas de saúde que as impeçam. Caberá a elas decidir se querem ou não que seus filhos cresçam saudáveis, fortes e magros. É claro que o destino metabólico das crianças não é total responsabilidade do peito materno. O código genético, a educação, o estilo de vida, tudo isso se combina para determinar como o corpo vai se desenvolver. Mas a alimentação dos filhos nos primeiros anos de vida - e até antes, na gestação -, esta sim é atribuição dos genitores. O que o bebê mama ou deixa de mamar hoje pode fazer diferença na balança e na saúde dele 20 anos depois.

Nem todo bebê que mama pouco vai crescer obeso ou acima do peso. Eu mamei menos de seis meses e nunca fui gorda. Ao contrário, cresci magricela - o que talvez seja também um indício de uma saúde imperfeita. Não sei. É possível que o corpo humano seja capaz de malabarismos que a ciência ainda desconhece. Só sei que, se um dia tiver um filho, terei de pensar não só na minha boa forma depois da gravidez, mas na dele também.

(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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