4 de mar de 2010

Chato é não mudar

O prazer da musculação é o resultado



Se fosse fazer uma enquete, talvez concluísse que algo entre 8 e 9 amigas minhas têm preconceito contra academias de musculação. Todas gostariam de estar um pouco mais magras ou um pouco mais gostosas, mas a maioria não se anima a enfrentar a rotina de uma malhação repetitiva naquele tipo de ambiente. Talvez achem que uma sala toda preenchida de máquinas pesadas não é exatamente um lugar para mulheres. Ou que é fútil demais gastar uma hora por dia dedicando-se exclusivamente a esculpir a musculatura. Mas há quem simplesmente ache que puxar ferro em vez de praticar um esporte ou dançar é muito chato.

De fato, uma sala de musculação não se compara a uma quadra. Ali não há nada de lúdico, não há jogo, não há professor animando a galera, não há equipes nem grupos unidos em torno de um objetivo comum. Ali é cada um por si, supervisionado por um professor que fala baixo, de olho nas necessidades individuais. O único propósito de encaixar-se naquelas máquinas e repetir os mesmos movimentos de sempre olhando para outras pessoas em ações (e até conversas) igualmente repetitivas é mudar o corpo por dentro.



Tenho uma amiga que andava ensaiando se matricular em alguma coisa para entrar em forma. Já tinha emagrecido com caminhadas e não costumava abusar na alimentação, já que é vegetariana. Mas ainda não estava satisfeita. Ela me escreveu meio aflita:

"Francine, estou em crise acadêmica! Preciso de ajuda! (risos) No meu processo de tentar ficar em forma e sair do sedentarismo, estou esbarrando em minha pobreza. Queria fazer pilates, mas as aulas são apenas duas vezes por semana (mais que isso é inaceitável financeiramente).Não sei se só isso resolve. A segunda opção é mandar o pilates se danar e entrar em uma boa academia, porém tenho medo de me machucar. O que você recomenda para alguém desembarangar?"

Além de engraçada, achei interessante a preocupação dela. Medo de se machucar. Então a impressão que ela tinha de uma academia era de descuido com os alunos, em contraste com o cuidado especial do Pilates. Será que é assim mesmo?


Sugeri que ela passasse por um bom médico e, junto com ele, com base na sua composição corporal e na qualidade postural, definisse seus objetivos mais urgentes. Acho que meu palpite foi útil. Ela me contou o seguinte, dias depois:

"Fiz uma avaliação física com uma médica muito legal. Uma fisiatra cubana, que aliás é a dona da academia. Estou animada. Mas ela me proibiu de emagrecer. Segundo a avaliação física, eu tenho 17,5% de gordura corporal. Ela quer que eu "inverta' a ordem em vez de perder peso. Tipo queimar massa gorda e criar músculo. Ela disse que, se eu perder 1,5 kg de gordura e ganhar 1,5 a 2 kg de músculo, alcanço uns 15,5% de gordura. Ela disse na minha cara: 'você está flácida e sem músculo. Precisa criar músculo, já tem 30 anos' (risos). Essas coisas muito agradáveis de escutar e ótimas para a autoestima feminina (risos). Por isso decidi começar a 'gostar' de musculação (risos)."

Acho uma delícia observar as mudanças que acontecem quando alguém resolve experimentar outro ponto de vista. Essa minha amiga queria emagrecer e, ao passar por uma avaliação profissional, descobriu que não está gorda. Só está flácida. E que, em vez de perder, precisa ganhar. Desconfio que a fisiatra estava preocupada não com a aparência da nova aluna, mas com sua saúde óssea. Depois dos 30 anos, a mulher precisa da musculação não só para ficar com a musculatura mais bonitinha. A musculatura mais firme vai estabilizar mais os ossos e articulações, como se segurasse mais forte no esqueleto. Além disso, o trabalho resistido no qual consiste a musculação também mexe no metabolismo dos ossos, favorecendo a calcificação e afastando o risco de osteopenia e osteoporose.

Meu consultor de cabeceira José Borbolla, um personal trainer devorador de livros e artigos científicos, me ajuda aqui nessa explicação: "A musculação é importante neste quadro, assim como demais exercícios que envolvam impacto, porque o tecido ósseo, como todos os demais tecidos do corpo, é vivo e responde a estímulos externos, principalmente àqueles aplicados ao longo do eixo longitudinal do osso (força de compressão). O tecido ósseo sente o estímulo e sinaliza quimicamente para uma maior produção de matriz óssea."

Não sei se foi o razoavelmente baixo percentual de gordura ou a verdade inconveniente que a fisiatra despejou na minha amiga, mas aparentemente ela se convenceu de que a musculação era uma atividade física importante e viável para ela neste momento. Importante como prevenção contra a perda de densidade óssea, importante como forma de embelezamento e importante também para ajudar na correção postural, além de uma série de outros benefícios que os estudos vêm apontando. Além disso, ela não deixou a intenção de fazer Pilates inteiramente de lado, optando por um tipo oferecido na própria academia, sem acréscimo na mensalidade. Já na primeira semana, a garota estava bastante otimista:

"A academia é legal. Estou fazendo três aulas de pilates solo e três sessões de musculação, intercaladas. Tive uma surpresa com a academia. A última vez que tinha feito musculação foi em 1999. As máquinas eram horríveis. Nossa! Como melhoraram! Estão mais confortáveis, com menos atrito... São quase agradáveis! (risos) Confesso que estou gostando mais do que naquela época porque as máquinas de hoje são muuuuuuito melhores. Antes eram máquinas mais pesadas. Sei lá, era estranho. Agora parece que tem uma espécie de amortecedor nos pesos. Muito bom. Você só sente o esforço do peso e nada mais. Tô sentindo a diferença na minha barriga 'geleca'. E penso: 'ai, por que não fiz isso antes?'

Para quem ainda nutre algum tipo de preconceito contra a puxação de ferro de academia, eu proponho um desafio. Informe-se suficientemente sobre seus benefícios, escolha uma academia de qualidade, faça as devidas avaliações, experimente praticar regularmente por pelo menos três meses e observe os resultados. Será que os preconceitos permanecem?

(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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