25 de fev de 2010

A barriga é feita de escolhas diárias

Se a vontade é perder peso, não há lugar para as desculpas

Fazia meses que não via meu pai. Tinha esperado as férias para fazer uma visita com calma, sem a mulher, os netos postiços, os amigos e vizinhos todos que costumam animar as festas e, de tanta alegria, não nos deixam conversar sozinhos nem curtir o silêncio juntos. Ainda não conhecia a casa nova, na nova cidade. Pequena, mas cuidadosamente arrumada. Até demais para um homem que mora sozinho, ousei pensar. Dois quartos, uma sala com cozinha americana, uma geladeira quase atrás da porta, tapetes e toalhinhas muito limpos.

– O que você quer comer? - perguntou.

Iríamos almoçar fora, claro. Aquela cozinha pequena é mais para o café; ele não é de cozinhar. Por causa do horário avançado, coisa de duas e meia da tarde de um sábado, sugeri um restaurante a la carte. Não confio nos bufês depois das duas. Comida velha não vale a pena.

Já sentados à mesa, ele me veio com um assunto repetido.

– Filha, estou com uma barriga que está me incomodando. O que faço para me livrar dela?


– Suponho que essa barriga não tenha surgido do nada. O que é que você anda comendo?

Menos de um ano depois de ter saído da casa da namorada para morar alguns quilômetros mais longe, imaginei que as refeições preparadas pela empregada tinham ficado no passado.

– Ah, filha. Eu costumo pedir marmitex. Depende das opções do dia. Às vezes é estrogonofe, tem dia que é linguiça, bife à parmegiana...
– Sei. Pratos bem leves, pelo jeito, né? - ironizei. E salada?
– Eles não têm muita salada.

Meu pai chegou a se orgulhar, tempos atrás, de ter aprendido comigo a comer verduras. Dizia isso de boca cheia (no sentido figurado), sentindo-se um tanto superior à turma da namorada, bastante afeita a açúcares e gorduras. Gabava-se de ser o mais ativo daquela outra família, já que em vez de dirigir fazia quase tudo a pé. De genética magra, nunca teve muitos problemas com a balança. Só agora, aos cinquenta e tantos, a barriga aborrecia sua vaidade. Agora, como a namorada fez tantas vezes, resolvia me perguntar como é que se faz pra cuidar da silhueta. Ao que me pareceu, tinha desaprendido.

No meio da conversa, o garçom veio ouvir o pedido. Como os pratos serviam duas pessoas, meu pai concordou em dividir um salmão cozido no vinho branco, arroz e legumes no azeite. Para mim era uma refeição ideal, mas para ele era um suplício. Aceitou porque era meu dia de visita, ou porque estava com o estômago sensível naquele dia. Mas previu que seria um dos almoços mais sem graça de sua vida. E desabafou. Gostava mesmo era de carne, temperos fortes, gordura que dá gosto às coisas. Não tinha nenhuma paixão por peixe nem por legumes cozidos.

E, ainda assim, queria perder a barriga.

Antes que o prato chegasse, desfilei todas as minhas teses acerca da boa alimentação. Disse que não era possível alcançar a desejada mudança em sua composição corporal sem fazer alguma alteração na dieta. Que era preciso priorizar os vegetais. Que uma rotina de exercícios físicos - coisa que ele já deixou claro que detesta - ajudaria, evidentemente, mas não substituiria as melhorias na alimentação. Fiz inúmeras sugestões. Que tal cozinhar pelo menos um pouco - coisas simples e muito rápidas, como brócolis, vagem ou couve-flor no vapor? Ele pôs defeito nos legumes da minha lista. Que tal ser mais seletivo nas encomendas de marmitex e complementar os pratos com uma salada comprada na feira e temperada em casa? Aí a desculpa foi falta de tempo. E se você comprasse a comida em outro lugar? Nada parecia solucionar a questão. Todas as dicas e palpites que eu ensaiava eram imediatamente rebatidos com uma objeção. Até que perdi a paciência:

– Se você não quer mudar nada, então contente-se com sua barriga. A escolha é sua. Ou você continua comendo as mesmas comidas pesadas, ou você reduz a barriga. As duas coisas não dá para ter.

Sem grandes prazeres, comeu o salmão com legumes. Depois de pagar a conta, saiu para fumar um cigarro - este, sim, um prazer que ele não larga há décadas. No caminho para casa, contou que finalmente estava decidido a parar de fumar. Queria cuidar melhor da saúde, da pele, dos dentes. Disse que iria procurar um médico e fazer algum tratamento para se desfazer do vício. Incentivei, claro. Vai que dessa vez dava certo? Depois de passar a vida toda insistindo para que ele abandonasse o hábito maldito, só me restava aplaudir uma atitude mais firme nesse sentido. Até acrescentei argumentos. Além de evitar males terríveis e ficar mais cheiroso, quem sabe, deixando o cigarro, ele poderia recuperar o paladar e sentir o verdadeiro gosto dos alimentos. Quem sabe, sentindo mais os sabores, aprenderia a apreciar o que é saudável e perceber nos gostos fortes a presença exagerada das gorduras e dos açúcares que fazem mal.

No dia seguinte, pudemos chegar em tempo a um restaurante a quilo, desses onde a gente se deslumbra com a variedade e enche o prato além da conta. Para mostrar que tinha aproveitado a conversa da véspera, meu pai se serviu só de salada, para começar. Na segunda rodada, foi mais honesto.

– Então a dica é forrar o estômago com verdura e preencher com comida de verdade, né? - fez graça, sem esconder a malandragem. E exibiu, com sorriso de moleque, as opções prediletas do dia: carne de porco com pele, torresmo e lasanha. E, para ajudar a descer, coca-cola. Não discursei mais. Meu recado estava dado; cabia a ele fazer sua parte.

O episódio me faz desconfiar que quem gosta de comida pesada e custa a gostar de comidas mais equilibradas vai sempre dar um jeito de convencer a si mesmo de que sua dieta não é tão má assim. À pergunta "o que devo comer para ficar em forma?", me parece, já foram dadas todas as respostas, em livros de dietas, em programas de TV, em revistas, em jornais, em sites, em blogs. Mas só as aceita quem quer. Objeções como falta de tempo, inaptidão para cozinhar ou dificuldades logísticas sempre terão seu lugar, desde que a vontade de mudar para valer não seja real. É uma questão de escolha. Uns preferem a gula, outros prezam mais pelo metabolismo saudável.

E você? Já fez sua escolha hoje?

(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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