16 de jan de 2012

Pergunte à dor

Quem tem boca vai a Roma. Quem pergunta a si mesmo recebe o melhor mapa


Sabe aquele tipo de dúvida que faz a gente passar algumas horas ou dias, às vezes até meses, pensando se deve dizer sim ou não a uma determinada oportunidade que se apresenta? Na semana passada me apareceu uma dessas, mas felizmente vez não precisei ficar queimando neurônios calculando a probabilidade de cada resposta ser a melhor. Dessa vez, preferi perguntar ao grande oráculo. Aquele que sempre sabe de tudo, mas só responde se a gente pergunta direito. Sabe, não?
Bem, eu havia experimentado, desde o fim do ano, fazer algumas meditações matinais, e os últimos exercícios tinham sido ótimos. No mínimo, aquietar um pouco a mente me daria um pouco mais de clareza nas ideias. Mas o que eu queria mesmo era acessar lugares que em geral a gente não visita quando está pensando para lá e para cá. E me parece que alguma camada desses lugares aí eu alcancei.

Então me sentei no tapete de borracha com as pernas cruzadas, fechei os olhos e procurei me concentrar na minha respiração. Passei uns bons minutos assim, esperando que as cores começassem a se embaralhar na minha mente, ou que eu sentisse aquele cheiro de incenso que já apareceu do nada. Quando achei que meu corpo já estava mais relaxado e misturado ao resto, comecei a fazer perguntas.

O que eu faço com aquela proposta que me fizeram? Eu quero aceitá-la? Eu quero recusá-la? O que ela tem a ver com tudo que descobri sobre mim nos últimos meses? Ela pode me ajudar ou tem mais chance de me atrapalhar nos meus objetivos grandiosos?

Sem verbalizar demais os pensamentos, continuei mantendo a mente relativamente quieta, esperando o que ela me traria em resposta. Então, sem nenhuma explicação nem vontade minha, minha cabeça começou a girar. Girava de um lado para o outro, em ângulos bem amplos, como naqueles exercícios de relaxamento que a gente faz no fim da aula de ginástica, só que sem meu comando consciente. Até que uma hora o pescoço pendeu para um lado e ficou ali. Parado.

Ué. Que será isso? Ei, mente, o que você está fazendo? Por que girou meu pescoço daquele jeito e agora me botou parada aqui nesta posição? Hein? Pode me explicar isso por favor? Devo ficar aqui? Vai me dizer alguma coisa? Eeeei! Helloooo! Não me esqueça aqui por favor. É sério, meu pescoço está começando a doer. Cara, tá doendo. É isso mesmo? É esse o exercício? Mas é você que vai devolver meu pescoço pro lugar ou posso levar ele de volta com minha própria vontade. Oi? Alô? Bem, eu vou voltar então, hein? Tudo bem? Posso voltar? Tô voltando. Se tiver algo mais pra me dizer, você me diz em seguida, OK?

Então devolvi meu pescoço lentamente à posição inicial, sem nunca abrir os olhos ou perder o nível de relaxamento. Voltei a curtir o conforto por poucos instantes, até que minha cabeça voltou a girar, desta vez num ângulo menor, mais confortável, que não me causava dor nem tanto incômodo. E de repente entendi.

Era tão simples, tão óbvio, tão claro. E bastou perguntar ao grande oráculo – as camadas quietas da minha mente – para receber essa resposta que não deixava sombra de dúvida.

Francine, minha querida, você não quer sentir dor, certo? Não quer ficar presa numa posição desconfortável, incômoda mesmo, que a deixe completamente fora do seu eixo, não é? Você já passou por isso antes, já sabe como lhe faz mal assumir posturas que não respeitam seu jeito de ser.


Pois bem. Se você tiver de fazer alguma concessão daqui para frente, meu amor, que seja aquele tipo de concessão que não lhe tire completamente do eixo nem cause dores ou danos à sua estrutura. Você pode, sim, ser flexível, deixar sua cabeça pender um pouco para o lado, girar em outras direções por algum tempo, sem estagnar em nenhuma delas, desde que seja fácil para você lembrar onde está seu eixo e voltar a ele sempre que precisar.

Então agradeci a lição dada pelo meu corpo, me deitei para finalizar e abri os olhos sabendo o que fazer. Não tinha ainda a resposta pronta, sim ou não, mas já sabia que perguntas fazer ao autor da proposta a fim de saber se ela me faria pender demais o pescoço ou se o giro que ela provocaria seria fácil de suportar.

Eu sei, e fui lembrada por esse exercício tão concreto, que o mal estar e os problemas de saúde começam a se instalar quando a gente sai do rumo, do prumo, de quem a gente realmente é. Para mim, agora, esse exercício de checar lá dentro quais são as nossas crenças e os nossos valores parece imprescindível para poder tomar as decisões certas. Parece tão mais fácil assim!

O mal estar, a doença e a infelicidade, eu acho, são resultado de uma inadequação. Uma inadequação daquilo que estamos fazendo em relação àquilo que somos. O resultado de basearmos nosso comportamento no que alguém disse que é certo, e não no que nosso grande oráculo grita lá dentro. Coitado, a gente o ignora tanto que ele é obrigado a criar dores e doenças para fortalecer o aviso. Porque em dor e doença a gente presta atenção, né? Morre de medo e vai correndo obedecer ao médico, que muitas vezes nem conhece a gente direito.

O grande oráculo, chame-o como quiser, está aí para ser ouvido, acessado. Está cheio de verdades para dizer, cheio de remédios 100% eficazes. Ele se comunica conosco pelo corpo o tempo todo, mas toda hora alguém nos convence de que o corpo não diz muita coisa de importante. Um desperdício a gente não prestar atenção nele. Eu sei que andei deixando meu oráculo de lado por mais tempo do que deveria. Mas agora eu sei, eu sei que ele tem as respostas que eu tanto queria. Só preciso perguntar. Direito.

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