24 de jan. de 2012

Quem você quer (mesmo) ser quando crescer?

Só mesmo com a pureza de uma criança para conseguir responder rápido a pergunta mais difícil de todos os tempos


Caramba, quando eu poderia imaginar que seria tão penoso descobrir quem eu quero ser quando crescer? Quando me perguntavam isso na infância, parecia tão fácil responder. Bastava examinar rapidamente as opções disponíveis (bailarina, palhaça, médica... eram poucas as que eu conhecia naquela época) e escolher a que me parecesse mais divertida. Parece que, à medida que fui crescendo, a resposta foi ficando mais difícil, talvez porque as opções foram se mostrando pouco divertidas ou totalmente desconhecidas.

Eu tinha apenas 16 anos quando decidi marcar “jornalismo” na inscrição da Fuvest. É claro que eu era muitíssimo imatura para tomar uma decisão que valesse para a vida toda (pelo menos era assim que eu a encarava). Nem de longe eu poderia imaginar o que é trabalhar na redação de um jornal ou de uma revista, com suas reuniões de pauta, deadlines e correrias insanas em busca de notícias, aspas e histórias exclusivas. Eu não podia prever que em muitos momentos o que mais importava para mim seria deixado de lado em nome de objetivos que não eram meus.


Então quase 20 anos se passaram (deus, como o tempo voa, já diziam os mais velhos) e me vi fazendo essa pergunta de novo: quem é mesmo que eu quero ser quando crescer? Porque a gente chega a esta idade em que teoricamente estaria plenamente realizada, vivendo quase o sonho americano, e descobre que crescer demora muito. Principalmente quando não se tem ideia do que exatamente é “crescer”.

A gente acaba acreditando que ser crescidinho é obedecer, é dançar conforme a música. Sofri muito até me perguntar se, afinal, para ter “sucesso na vida” era mesmo preciso abrir mão de tanta coisa, fazer tanto sacrifício, tanto esforço para dançar aquela música chata. Se aquilo era crescer, se aquela pessoa estressada era o que eu sonhei ser quando criança, então ser adulto bem-sucedido era a maior roubada de todos os tempos.

E foi diante dessa constatação dramática que resolvi que não era bem esse o meu sonho, não. Eu tinha é cometido um erro de percurso. Precisava retomar o caminho certo.

Eu disse que descobrir quem eu realmente queria ser foi penoso? Na verdade, penoso foi descobrir que eu não sabia. Ou melhor, que no fundo eu até sabia, mas não estava sendo. Sim, isso é ruim. Não ser ainda quem a gente quer ser, sabendo disso. E aí só resta admitir a verdade e tratar de começar a ser, né? Mas como é que se faz isso?

Comecei a me perguntar de novo inúmeras perguntas incômodas. Incômodas porque as respostas não vinham. Não vinham porque não estavam prontas. Ou porque haviam sido esquecidas, guardadas no fundo de alguma gaveta no quartinho de entulho. Já fez arrumação num desses quartinhos atolados de coisa velha? É melhor escolher um dia ensolarado, viu? Para manter o bom humor. Porque não é só lixo que a gente encontra. Não são só velhos conceitos que já não servem e merecem ser jogados fora. Debaixo da poeira também vivem antigas alegrias que a gente deixou de visitar e uma porção de equívocos que a gente achou que não teriam grandes conseqüências no futuro.

(Essa metáfora me lembra a peça infantil Bonequinha de Pano, do Ziraldo, que me matou de chorar quando assisti em 2002. As crianças acham só engraçadinha, mas os adultos na plateia choram pra valer).

Aí resolvi rever o Feng Shui que havia aplicado em casa. Calma, não estou mudando de assunto, não. É que a “decoração Feng Shui” (que me perdoem os orientais pelo termo), no meu ver, é uma forma de nos lembrar das coisas importantes da vida. Não sei se a organização da casa com base no Ba gua modifica de fato a circulação de energia, como eles dizem. Mas, ao associar determinados objetos às minhas diferentes aspirações, e ao olhar para eles diariamente, eu sou lembrada de que essas aspirações são importantes e devem ser perseguidas.

Quando olhei de novo para a planta do apartamento rabiscada conforme o Ba gua manda, vi que algumas coisas estavam faltando. Na área do sucesso, por exemplo, havia pedaços de móveis, pneus velhos e nenhuma planta. Faltava beleza ali. Faltava alegria. Que espécie de sucesso eu esperava ter desse jeito? Então, para corrigir a falha, enchi o lugar de vasos, flores e ervas.

Na área da criatividade e das crianças, que eu antes acreditava estar ligeiramente mais para frente na sala (mais precisamente no sofá) mas que depois constatei estar num aparador, botei esculturas, livros de culinária e artesanato e um objeto divertido, adquirido especialmente para estimular meu lado brincalhão.

Se há alguma relação entre a decoração do cômodo e seu correspondente no Ba gua, eu só posso deduzir que para ter o sucesso que eu desejo eu precisarei cultivar meus projetos com muito cuidado, conforme as delicadas necessidades deles. Não poderei abandoná-los à própria sorte, senão eles facilmente morrerão de sede, desnutrição ou excesso de chuva. E, para ser mais criativa, será preciso botar a mão na massa. Ou seja, experimentar, arriscar, fazer coisas novas sem medo do julgamento.

Além dos questionamentos e da revalorização de atividades esquecidas, meu processo de autodescoberta também incluiu leituras diversas, filmes, conversas, anotações e uma consultoria profissional contratada especialmente para me orientar no mar de dúvidas, ideias e vontades que começaram a surgir em minha mente. Como um estudo acadêmico de mim mesma.

Em um dado momento, o que era penoso começou a gerar alguns prazeres. Houve um dia especial em que finalmente me senti leve e feliz como havia muito não sentia. Eu tinha conseguido lembrar uma emoção importante que me guiou anos atrás. Senti de novo essa emoção, e de novo eu soube quem eu queria ser. E lembrei que não conheço sensação melhor que essa.

Essa leveza depende em grande parte do necessário perdão que alguma hora a gente precisa dar a si mesma. O perdão pelos desvios de percurso, pelos erros cometidos, pelas decisões equivocadas e principalmente, eu diria, por não querer aquilo que disseram que era o certo. A gente precisa ter a bondade de aceitar quem a gente é, por mais que isso transgrida algumas regras.

Sabendo melhor quem eu quero ser quando crescer, preciso tratar de crescer. Ou me desenvolver, como prefere meu atual orientador de jornada.

As plantas da minha sacada precisam só de luz solar, terra fértil e água para se desenvolver. Eu preciso de um bocado mais de riquezas, entre as quais priorizo neste momento alguns estudos, doses generosas de novos prazeres, fé renovada e a tranquilidade adequada para prosseguir sem medo.Ou pelo menos foi o que consegui identificar até agora.

Para quem também precisa de incentivo e inspiração para virar a mesa, sugiro uma musiquinha malandra do Zeca Baleiro: Eu despedi o meu patrão. É no mínimo divertida.


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2 comentários:

Suzane disse...

Adorei... :o)

fabio menezes disse...

se verdadeiramente livres fossemos, catalogar borboletas e flores seriam as profissões mais desejadas.

Um beijo Fran adorei seu blog!