1 de mai de 2012

Discutir nutrição é bem mais que contar calorias e nutrientes

Profissionais das áreas de humanas são mais importantes nesse desafio do que se costuma pensar


Era domingo à noite, e o Rio Cenarium estava lotado, para variar. A enorme e famosa casa de samba do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, estava sendo ocupada por dezenas de pessoas de tudo que é cor, etnia e idioma. Pesquisadores engajados, acadêmicos ilustres e estudantes, principalmente de nutrição, mas também da antropologia, sociologia, medicina e até jornalismo (eu estava lá, oras!), partiram da penúltima plenária do World Nutrition Rio 2012 direto para a confraternização, regada a muita caipirinha, bolinhos de bacalhau e mandioca frita com carne seca.

Aquela gente que falava inglês, francês, espanhol, português e outras línguas estava toda lá, misturada, curtindo o mesmo som no mesmo ambiente. E cheia de vontade de se conhecer, trocar ideias, conhecimentos, ideais e cartões.

Numa das minhas várias passeadas espremidas pelos três andares da casa, um chileno que eu havia conhecido num grupo de trabalho me parou. Era Claudio Schuftan, do People's Health Movement, uma rede internacional de ativistas que atuam em prol da saúde pública. Ele queria saber mais sobre essa minha intenção de fazer jornalismo investigativo na área da saúde, o que lhe parecia muito bem-vindo, pois faltava mesmo algo desse tipo no setor.



Depois encontrei a Mariana Ferraz, advogada do Idec, junto com a Ekaterine Karageorgiadis, do Instituto Alana. A primeira atua em defesa dos direitos do consumidor, incluindo o consumidor de alimentos, e a segunda batalha pela regulação da publicidade (inclusive de produtos comestíveis) voltada para crianças. As duas ONGs são financiadas por doações e verbas não vinculadas ao setor produtivo e são uma das poucas (pouquíssimas) a atuar pela nutrição no Brasil. 

Mais tarde a Valéria, uma carioca que tinha ouvido minha conversa com o Claudio Schuftan, me puxou. Médica especializada em obesidade, estava encantada com o teor político das discussões no congresso e ansiosa para aderir a uma forma diferente de atuação. Ela me contou que havia se dedicado por anos ao atendimento clínico e a estudos sobre aspectos biológicos da obesidade, mas que agora estava convencida de que a solução estava na saúde pública. Tinha ouvido as palestras do Carlos Augusto Monteiro (meu orientador no mestrado) e queria saber como era fazer pós-graduação na Faculdade de Saúde Pública da USP.

Também estava lá a Maína Pereira, nutricionista recém-formada pela UnB, que trabalha no Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília junto com a professora Renata Monteiro. Estava animadíssima por enxergar a nutrição por outros ângulos.

Toda essa gente tem a mesma preocupação: conseguir que as pessoas que estão matando a fome de forma inapropriada conquistem ou retomem a capacidade de se alimentar satisfatoriamente. Isso é um desafio gigantesco, reconhecemos todos. Pois envolve conhecimentos, políticas e ações de diversos setores.

  • Envolve combater o poderio econômico de empresas que investem milhões de dólares todos os anos na ampliação de seus mercados globais para saciar a fome de cada vez mais gente de forma inadequada - e fingir que está fazendo algo bom. 
  • Envolve combater a corrupção entre legisladores que aceitam dinheiro e regalias para favorecer essas empresas. 
  • Envolve educar as populações contra toda essa "liberdade de expressão" e essa liberdade de mercado maquiavélica que contribui para piorar nossos indicadores de saúde. 
  • Envolve ampliar alianças para fortalecer políticas de desenvolvimento da agricultura local em prol de uma maior disponibilidade de alimentos naturais, integrais e verdadeiramente saudáveis para a população.
  • Envolve projetos de valorização da cultura e da sociobiodiversidade, para que não se percam as tradições culinárias.
  • Envolve modificar a lógica econômica vigente, favorecendo os negócios que tragam maior benefício para todos e restringindo aqueles que tragam maior malefício ao planeta e às pessoas. 
  • Envolve melhorar a legislação, que em grande medida ainda facilita a festa das indústrias e dificulta que as escolhas dos consumidores sejam bem informadas. 
  • Envolve dar maior visibilidade a todos esses temas, a fim de empoderar a sociedade.
  • Etc.

É por isso que a Faculdade de Saúde Pública da USP e outras academias pedem que profissionais de outras áreas, que não as da saúde, se juntem a nós nessa briga. O pessoal da área de humanas é mais que bem-vindo. O das exatas também, até pra ajudar a fazer estatística transparente e desmascarar os estudos tendenciosos. Alimentação saudável é interesse de todos. Logo, esse ativismo é pra todo mundo.

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2 comentários:

Maína Pereira disse...

Que nos próximos anos possamos contar com mais e mais profissionais de diversas áreas engajados no conhecimento, política e ação em alimentação e nutrição!

Anônimo disse...

Caipirinha, bolinhos de bacalhau e mandioca frita com carne seca... parece muito contraditório.