18 de dez. de 2007

Leite filtrado

O Brasil ainda não tem, mas faz décadas que em alguns países da Europa toma-se um leite de vaca que não precisa de tratamento térmico (como o UHT) e mesmo assim é seguro. Esse leite passa por outro processo industrial, chamado microfiltração, que preserva o gosto de leite cru – coisa que o brasileiro urbano já esqueceu faz tempo. Segundo o Ital (Instituto de Tecnologia de Alimentos), que vem estudando a microfiltração há pelo menos três anos, a tecnologia utiliza membranas semipermeáveis, espécies de filtros, que podem ou não ser combinadas a um tratamento térmico brando.

A vantagem do leite microfiltrado, segundo o instituto, é que as membranas semipermeáveis retêm os microorganismos sem utilizar tratamentos térmicos agressivos, e assim as proteínas e vitaminas são mantidas, preservando-se as propriedades nutricionais e os conseqüentes benefícios à saúde. O pesquisador Manuel Carmo Vieira diz que o equipamento de microfiltração só é fabricado fora do Brasil, mas é mais barato do que o utilizado no aquecimento UHT. Talvez por conta das dificuldades de armazenamento e transporte, já que o leite filtrado precisa de refrigeração constante, a produção de leite longa vida acaba sendo mais lucrativa. Quer dizer, se houver produtores interessados em trabalhar com a microfiltração, o consumidor provavelmente terá de arcar com um preço mais salgado.

13 de dez. de 2007

Vamos proibir as criancinhas?

Desta vez a iniciativa veio da indústria. As maiores companhias de alimentos do mundo se juntaram para assinar um compromisso para interromper a publicidade de junk para crianças com menos de 12 anos. Foi um jeito de escapar a uma proibição imposta pela Comissão Européia, criando as próprias restrições. Mais ou menos como o Conar (Conselho de Auto-regulamentação Publicitária) faz aqui. Entre as 11 companhias presentes no acordo estavam Mars, Nestlé e Unilever. Elas concordaram em não divulgar alimentos e bebidas fabricados sem critérios nutricionais na televisão, na mídia impressa e na Internet para crianças menores de 12 anos. Só não entendi como é que elas pretendem restringir o acesso dessa faixa etária à propaganda que, pelo jeito, elas continuarão a veicular para as crianças maiores.

5 de dez. de 2007

Segredos da cantina


Já faz algum tempo que as cantinas escolares são alvo de atenção pelo tipo de alimento que oferecem às crianças. Hambúrgueres, refrigerante, salgadinhos Elma Chips, balas, cachorros-quentes. Felizmente alguém se tocou de que isso não é comida que se dê sem limites a quem está em fase de crescimento, especialmente crescimento para os lados. E começaram a surgir militantes do lanche saudável nas escolas. No Brasil, colégios particulares têm se esmerado em estratégias educativas e proibitivas para evitar que seus alunos comprem entre as aulas ou levem na lancheira qualquer item que exceda demais as recomendações nutricionais para a idade deles. Nas escolas públicas a coisa vai mais devagar. Justamente porque esbarra na lista de compras do governo, que sempre tem verba limitada e requer licitações antecipadas para compras no atacado.

Em setembro, a Folha noticiou que a prefeitura de São Paulo cedeu a um pedido da Nestlé para que fosse aceito numa dessas licitações um produto inadequado para a alimentação infantil. Segundo as normas da competição, as empresas concorrentes deveriam oferecer uma sopa desidratada que contivesse uma determinada proporção de ingredientes. Segundo o jornal, a vontade da Nestlé era participar da licitação mesmo tendo uma sopa com muito menos carne do que o exigido. E o prefeito Kasasb aceitou.

Lá no país que nos serve de referência para quase tudo, os problemas são outros. Ali não falta dinheiro e a merenda é farta, até porque as escolas fazem parcerias com empresas de alimentos. Conforme conta a nutricionista Marion Nestle em seu livro Food Politics, tornou-se comum colocarem aquelas máquinas com todo tipo de junk food para os alunos comprarem à vontade e imprimirem propaganda de lanchonete em capa de caderno. As escolas públicas de lá recebem do governo remessas fartas de alimentos industrializados cheios de derivados do milho, principalmente o famoso adoçante concentrado de frutose, base de todo refrigerante. Resultado: estudantes gordinhos e obesos por toda parte, com problemas de diabetes e risco alto para doenças cardiovasculares no futuro.

Esta semana, o Senado americano apresentou a proposta de banir toda essa porcariada das escolas. Eles pretendem estabelecer um limite de calorias, açúcar e sal para os alimentos adquiridos fora do programa governamental de merenda escolar. Se aprovadas, as medidas devem passar a valer só a partir de 2011. Marion Nestle (não, ela não tem nada a ver com a Nestlé) me escreveu de lá dizendo que o senador Harkin pensa estar dando o passo máximo em direção à merenda saudável, mas não é bem por aí. “De um ponto de vista estritamente pragmático, vale a pena sustentar a tese dele, pois isso vai tirar a pior comida da maior parte das escolas. Mas não acho uma boa idéia usar parâmetros nutricionais para determinar o que entra e o que sai”, me disse Marion. “As indústrias irão simplesmente formular produtos que se encaixem nas notas de corte”, ela deduz. A sugestão dela é que o governo simplesmente proíba a compra de produtos competitivos e elimine completamente as máquinas de salgadinhos.

Uma das grandes defensoras do cardápio saudável nas escolas americanas a “tia da cantina regenada” Ann Cooper. Ela tem um blog só sobre isso. Transtornada com as notícias mais recentes na imprensa de lá sobre alimentos e o gosto das crianças, ela levanta a hipótese óbvia: “Será que essa tese de que as crianças não iriam comer comida saudável vem da certeza de que, se comessem montanhas de frutas frescas, verduras e alimentos integrais as corporações perderiam lucro? Hmmmm...”