17 de set de 2009

Difícil comer bem no trabalho

Segundo todos os nutricionistas que eu já consultei em meus 11 anos como jornalista, uma alimentação saudável é feita de cinco ou seis refeições diárias, com quantidades e tipos de diferentes de alimentos em cada uma. A recomendação para quem acorda cedo e mantém uma rotina de exercícios é que se faça um desjejum bem servido ao acordar. Três horas depois, um lanche mais modesto. Passadas mais três horas, um almoço completo. Outras três, um lanche da tarde. Mais três horas, o jantar e, conforme for, antes de dormir, uma ceia leve. Tudo balanceado, com muitas frutas e hortaliças e calorias limitadas.

A questão é como seguir essas recomendações no período de trabalho. Será que nossa rotina favorece uma alimentação saudável? Quem nunca ficou preso numa reunião interminável e perdeu a hora de almoçar? Quem não passou fome a ponto de sentir o estômago e a cabeça doendo? Quem nunca pediu umas bolachas ao colega porque não podia escapar até a cafeteria da esquina?

Comer bem o dia inteiro e fora de casa depende de haver uma oferta variada de alimentos saudáveis onde quer que você esteja, aonde quer que você vá, em todos os horários em que você precisar comer, e que você tenha condições de consumir. Se você trabalha no centro da cidade, pode ser que encontre opções de alimentação das mais diversas a qualquer horário do dia e a poucos metros do seu emprego. Mas, se você trabalha numa região afastada de qualquer centro urbano, onde não dá para caminhar com segurança nem existe aonde ir a pé porque tudo que há em volta são estradas, carros e caminhões, é bem possível que você precise preparar em casa uma cesta de piquenique todos os dias antes de sair.

O êxito no desafio de se alimentar bem no horário de trabalho depende, a meu ver, dos seguintes fatores:

- A distância, em deslocamentos a pé, da empresa em que você trabalha até uma variedade de casas comerciais que vendam alimentos saudáveis frescos ou industrializados;
- Os preços praticados nessas casas;
- A higiene e a qualidade nutricional dos alimentos vendidos nesses lugares;
- A existência de restaurante(s) e cafeteria(s) de qualidade dentro da empresa;
- A existência de uma copa ou cozinha com pia, geladeira e microondas ou marmiteiro para uso dos funcionários dentro da empresa;
- A existência, perto da sua estação de trabalho, de um local limpo e confortável para comer os alimentos que você leva de casa;
- O direito de se ausentar de sua estação de trabalho para se alimentar em outros horários além do de almoço;
- O meio de transporte que você usa para ir ao trabalho e a quantidade de bagagem que você consegue carregar em trânsito;
- Os hábitos alimentares do seu chefe no horário de trabalho;
- Os horários em que você entra e sai do trabalho;
- Os horários e o tamanho da sua fome;
- Os deslocamentos no meio do dia e as atividades que você tem fora da empresa.

Um amigo comentou outro dia que, em algumas empresas de vanguarda, que procuram promover o bem-estar dos funcionários, como o Google, a refeição é tão boa, mas tão boa, que os funcionários engordam de tanto comer. Ele se lembrava especialmente de um petit gateau na sobremesa uma vez por semana. Era um benefício que acabava fazendo mal.

Mas esse não é o problema na maioria das empresas. O problema mais complicado é a falta de opções.

Uma vez visitei uma fábrica na beira de uma estrada na Grande São Paulo. Era impraticável passear pelas redondezas a pé. Os operários passavam o dia lá e só saíam para ir para casa. Todas as refeições eram feitas lá. Eles estavam orgulhosos do novo refeitório, bem melhor que o antigo. Naquele dia, comeram hambúrguer. Fiquei surpresa. Se hambúrguer era exemplo do novo cardápio saudável, o que será que eles comiam antes?

Por falar em hambúrguer, esta semana, uma loja do McDonald's foi condenada na Justiça a indenizar um ex-funcionário que tinha sido alimentado somente com lanches da rede em seu horário de trabalho durante quase dois anos. A decisão do juiz afirmou ser prejudicial ingerir aquele tipo de comida diariamente “em substituição a uma das principais refeições do dia, por um longo período de tempo”. Mas, segundo notícia veiculada no site de Época, a loja diz que, assim como outras empresas do setor, estava cumprindo com sua obrigação ao oferecer alimentação, “conforme a legislação vigente”. A empresa ainda não sabe se vai recorrer da decisão.

A legislação manda que as empresas garantam uma refeição por dia aos trabalhadores com turno de mais de seis horas, seja por meio de vale-refeição ou refeitório. Na maioria dos casos, essa refeição é o almoço. O restante das refeições fica por conta e risco dos funcionários.

Empresas com algumas centenas de funcionários costumam ter pelo menos uma cafeteria ou lanchonete dentro do prédio. Por causa da correria do dia a dia, ela acaba sendo a solução para a fome de quem não leva nem uma frutazinha de casa. Mas, ao contrário dos refeitórios, a lanchonete não costuma ter um cardápio elaborado por uma nutricionista e não é obrigada a vender somente alimentos saudáveis. Se nem as cantinas escolares são, imagine as lanchonetes que lucram com centenas de funcionários famintos. Elas vendem o que querem. E você compra só se quiser.

Um outro amigo meu almoça no refeitório, mas não gosta de comer na lanchonete da empresa. Ele leva de casa, todos os dias, uma bolsa térmica com frutas frescas escolhidas a dedo na feira, e conservadas com uma bolsinha de gel congelado. Mata a fome no fim da tarde sem nem sair da frente do computador. E haja fruta para aguentar até a hora do jantar.

Nas empresas pequenas, no entanto, parece que as refeições “caseiras” têm mais espaço para acontecer. E a impressão que tenho é que, nessas empresas, os chefes ficam mais próximos dos funcionários e todo mundo assume que tem fome e precisa comer bem. Conheci dois chefes que ofereciam o almoço para suas equipes ali mesmo, na casa em que estavam instaladas sua pequenas empresas de comunicação. Em ambos os casos, na cozinha onde todos podiam abrir a geladeira e se servir de água num copo de vidro, uma cozinheira preparava o almoço para todos, com arroz, feijão, alguma carne, legume cozido, salada. Igualzinho à comida da casa da gente. E almoçavam todos numa mesa grande, como uma família. Quem quisesse podia guardar seus lanchinhos na geladeira, pois havia espaço.

Nos escritórios de prédios comerciais, normalmente existe uma pequena cozinha com pia e espaço para pelo menos um frigobar. Se há uma funcionária para manter a limpeza e se todos concordam em não esquecer estoques de comida na geladeira por muitos dias, é perfeitamente possível guardar ali frutas, iogurtes e demais alimentos adequados para os lanches da manhã e/ou da tarde. Desde que não entrem todos ao mesmo tempo na cozinha.

A Consolidação das Leis Trabalhistas, que nos garante o almoço diário no meio do expediente, é de 1943. Hoje, com as informações que a ciência nos proporcionou, sabemos que um bom almoço não basta. A gente consegue criar as próprias alternativas e até transformar nosso gabinete debaixo da mesa do escritório em despensa. Mas vai ficar um pouco mais fácil fazer todas as refeições do dia com qualidade se as empresas de alimentação e as que nos contratam também fizerem questão de que nossa alimentação seja a melhor possível.

(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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