24 de set de 2009

Seu professor da academia é bom?

Quando a gente começa a praticar uma nova atividade física, nem sempre tem como saber logo de cara se o professor é bom. A gente pode perguntar pra um amigo que tenha conhecido o professor antes, mas será que o amigo entende de exercício? E, se a sua academia é daquelas em que o rodízio de profissionais é grande e a maioria é bastante jovem, como ter certeza de que o novo professor tem conhecimento suficiente para cuidar de você?
Sondei alguns profissionais de educação física do Rio de Janeiro e de São Paulo, e eles me deram algumas dicas do que a gente pode perguntar ao instrutor para checar se ele está atualizado.
Há aquela primeira abordagem básica, que vale para qualquer serviço profissional:

- Tem diploma?

- Onde estudou?

- Tem registro profissional no Conselho Regional de Educação Física (CREF)?

- Fez pós-graduação?

- Qual a experiência profissional?

- Qual a linha de trabalho?

- Está apto a trabalhar de acordo com os meus objetivos?

- Tem disponibilidade para me dedicar a devida atenção e se comunicar comigo inclusive fora do horário da atividade?

Se as primeiras respostas forem positivas para você, dá para se aprofundar um pouco nesses tópicos, conforme o seu interesse. Por exemplo, você pode querer saber se a linha de pesquisa que o profissional segue na universidade está sintonizada com o seu objetivo na atividade física escolhida. Se ele for professor universitário, ele possivelmente irá gostar de lhe transmitir informações mais técnicas e cientificamente atualizadas sobre os exercícios, numa linguagem apropriada para o seu entendimento. Quem sabe até ele tope passar e-mails com artigos bacanas sobre o que você quer fazer. É também um jeito de saber quais são os assuntos que ele pesquisa.
Você deve observar qual é o interesse do seu professor no trabalho que irá desenvolver com você. Quanta atenção ele lhe dá? Para o coordenador de musculação da academia Competition Roberto Calabrese, a proporção entre o número de professores e o de alunos numa academia interfere no grau de atenção que cada profissional é capaz de dar ao aluno. Um professor atencioso não só cumprimenta e pergunta como vai. Ele quer saber tudo que seu corpo possa dizer em matéria de respostas mecânicas e fisiológicas ao treinamento. O que ele faz a partir das informações que você fornece sobre sua saúde, suas limitações posturais, seus indicadores físicos e bioquímicos? Se o programa de exercícios que ele lhe passa não leva em consideração as suas características particulares, suas dores e seus prazeres, você não está sendo bem atendido.

Os interesses do profissional podem revelar muito sobre como ele pensa e como ele planeja os seus exercícios. Por exemplo, se ele quer treinar jogadores de futebol e pesquisa muito sobre o que há de mais atual em treinamento esportivo para o futebol, é possível que ele use esses conhecimentos no seu programa de exercícios. Mas, se você não joga nem pretende jogar futebol, será que essas técnicas são as melhores para você?

Segundo Jorge Steinhilber, presidente do Conselho Federal de Educação Física, as verdades no campo da educação física costumam não ser absolutas. Elas valem dentro de uma determinada teoria, e cada profissional escolhe qual vai adotar. Uma estratégia que funcione para um atleta que queira quebrar um recorde não necessariamente será a melhor para a sua saúde.

Além disso, as certezas mudam à medida que a ciência avança. Muitas das verdades de 30 anos atrás hoje são balelas. Há três décadas, era praticamente proibido prescrever levantamento de pesos para idosos. Hoje, a musculação é considerada muito benéfica para a saúde na terceira idade.

Também se acreditou, por muito tempo, que era indispensável fazer alongamento antes de qualquer exercício. Hoje os estudos mostram que não há fundamento científico para essa recomendação. Em alguns casos, como o de atletas que precisam de força numa prova, o alongamento pode até atrapalhar, reduzindo a força momentaneamente. Mas pergunte para o seu professor se é preciso alongar antes. E conte pra mim o que ele respondeu.

Eduardo Netto, diretor técnico da academia A! Body Tech, diz que ainda vê por aí profissionais repetindo mitos contestados pela ciência. E dá alguns exemplos:

- Para emagrecer, é preciso fazer exercícios de longa duração e baixa intensidade? A resposta certa, segundo Netto, é não. Os exercícios curtos e intensos também funcionam muito bem para a perda de peso.
- Ainda para emagrecer, é melhor fazer os exercícios de força primeiro e o aeróbio depois? A resposta ultrapassada é que os exercícios de força consomem a maior parte da energia disponível gerada pela glicose sanguínea e o corpo é obrigado a usar a gordura corporal como combustível na hora do exercício aeróbio. A resposta atualizada seria que tanto faz a ordem dos exercícios, desde que você gaste mais calorias do que ingere até o final do dia. O importante é conseguir realizar os dois, sem que um atrapalhe o outro.
- O agachamento profundo (aquele em que a gente flexiona os joelhos muito além dos 90 graus e quase encosta o glúteo no calcanhar) ativa melhor o quadríceps (músculo frontal da coxa) e é bom para malhadores avançados? Segundo Netto, o exercício é usado por corredores de longa distância e fisiculturistas, mas não há comprovação de que traga benefícios.

Se o seu instrutor for um profissional que goste de estudar e esteja atualizado em sua área de interesse, ele saberá responder inúmeras perguntas que você venha a fazer sobre seu programa de exercícios. Em vez de recitar uma receita de bolo, ele poderá explicar por que prescreveu este e não aquele exercício. Ou por que você precisa de um determinado tipo de estímulo num determinado período e não em outro. Ou por que você não deve fazer o exercício que o colega ao lado está fazendo. E, se você insistir, talvez ele possa até mostrar as revistas científicas com os estudos que comprovam o que ele está dizendo. Aí, sim, você poderá confiar nele.

(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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