8 de out de 2009

Você sabe o que está comendo?

Outro dia chegou à redação da ÉPOCA, em meu nome, uma torta doce para eu experimentar. Tratava-se de uma cortesia do fabricante, coisa de assessoria de imprensa, na expectativa de que o jornalista se interesse em escrever a respeito. Era um tipo de torta de ótima aparência, em tamanho razoável para consumo individual, parecida com algumas que eu já havia comido por aí. A diferença é que vinha dentro de uma embalagem de papelão, com todas as informações necessárias, para ser vendida em supermercados.

Examinei a embalagem e encontrei a tabela de composição nutricional. Foi a hora do espanto. Aquela torta de noz pecã, aparentemente saborosa, tinha mais de 800 calorias e 71% de gordura.
Procurei saber de onde vinha tanta gordura e a lista de ingredientes me sugeriu que a responsável era a manteiga, o único item gorduroso além da noz. Aquilo devia ser feito com uma xícara inteira de manteiga, socorro. Era demais para meu apetite. Por mais que seu aspecto desejável pudesse me causar tentações, eu não tinha coragem de pôr para dentro tantos gramas de gordura de uma vez só.

Rejeitei o presente e o larguei num canto qualquer, à disposição de quem quisesse comer gordura voluntariamente. E me lembrei das vezes em que comi tortas parecidas como aquela, em lanchonetes de shopping, sem supor que poderiam ser bombas tão calóricas. Se eu soubesse que podiam ser tão nutricionalmente desequilibradas, não teria comido. Me senti um tanto ingênua. Mas também injustiçada. Eu não tinha como adivinhar o conteúdo da torta, não podia deduzir como era feita, não conhecia o autor da receita. Aliás, não poderia nem mesmo saber se tinha comido tortas igualmente gordas ou versões mais magras do que a que recebi da redação.

Por enquanto, as lanchonetes não são obrigadas a fornecer informação nutricional sobre o que vendem. Somente os produtos embalados têm essa exigência, segundo uma resolução de 2003 que obrigou todos os fabricantes de alimentos e bebidas a incluir em suas embalagens a lista completa de ingredientes e a tabela nutricional. Mesmo as padarias dentro dos supermercados têm de imprimir etiquetas para seus pedaços de bolo vendidos por peso. Mas, na ausência de embalagem, a gente fica no escuro, sem saber o que está comprando.

Encontrei na internet uma lista de projetos de lei, propostos por vários deputados, destinados a obrigar estabelecimentos de alimentação a melhorar a comunicação do conteúdo nutricional de seus produtos à clientela. Encontrei também artigos de gente do setor de bares, lanchonetes e restaurantes criticando essas iniciativas, pois para informar os dados nutricionais de cada um de seus produtos os estabelecimentos precisariam gastar dinheiro com a contraração de um nutricionista.

Enquanto ninguém é obrigado a fazer nada, cada um age como acha melhor. Algumas redes de fast food já abriram o jogo sobre o teor calórico de seus lanches, seja nas suas páginas na internet, nos cardápios, impressos no verso dos jogos de mesa ou em etiquetas dentro da vitrine. Aí cabe ao freguês se interessar pela informação disponível e examiná-la.

Nos estabelecimentos que ainda não dão essa canja, a gente continua tendo de adivinhar tudo. Ou encher o balconista de perguntas e conseguir o máximo de respostas objetivas, precisas e confíáveis. Eu, que sou intolerante à lactose e parei de comer quase todo tipo de laticínio, tenho de perguntar sempre se determinado item do cardápio contém algum ingrediente derivado do leite. “Tem creme de leite? Queijo? Leite? Tem certeza? Pode confirmar na cozinha, por favor?” É bem chato, na verdade. Tanto para mim quanto para o balconista, que perde tempo nesse vai-e-vem. Mas, se a informação não vem até mim – na forma de lista de ingredientes e tabela nutricional – eu tenho de ir até ela de alguma forma.

Uma alternativa para questionadores como eu é a Tabela Brasileira de Composição dos Alimentos, desenvolvida pela Unicamp e publicada na internet. Ela pode ser acessada por qualquer pessoa ou empresa, gratuitamente. Trata-se de uma lista gigantesca de alimentos, de frutas in natura a feijoada, acompanhada de todas as informações nutricionais importantes sobre cada item. Ali eu encontrei, por exemplo, quantas calorias estão presentes em 100 gramas de acarajé. A nutricionista Renata Padovani, autora da tabela, me explicou que para chegar a esses números a equipe busca receitas regionais em diferentes estabelecimentos e estabelece uma média. Portanto a tabela não é universal. Mas serve de parâmetro, inclusive para os estabelecimentos que quiserem mostrar aos clientes de quantos gramas de proteína, carboidrato e gordura é feito o seu acarajé.

A TACO é um projeto permanente que começou em 1996. Desenvolvida com verba do governo federal (nosso suado dinheirinho), ela é baseada na lista dos alimentos mais consumidos pelo brasileiro, que por sua vez é gerada pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE (Instituto Brasileito de Geografia e Estatística). Por isso a feijoada e o acarajé estão ali, mas a torta de noz pecã, não. Segundo a nutricionista Renata, à medida que a indústria desenvolve compostos novos, a pesquisa cresce. Sempre com a conhecida limitação de verba.

Por causa dessa limitação de verba, a tabela estabelece valores nutricionais para tipos de produtos, e não para marcas de produtos. Ou seja, na hora de analisar a composição de uma bolacha de água e sal, são comprados pacotes de bolacha de várias marcas. Elas são misturadas e o conjunto é analisado. Daí sai um número que representa a média das bolachas da categoria água e sal. Futuramente, diz Renata, espera-se que o governo libere mais dinheiro para analisar marca por marca. A partir daí, a tabela poderia servir também como instrumento de fiscalização. Por enquanto, os fabricantes imprimem em suas embalagens a tabela que quiserem, e não há ninguém muito de olho para dizer se as informações são verdadeiras.

Essa preocupação em torno das informações nutricionais ainda é muito nova no Brasil. Tanto é que a resolução que obriga a indústria a nos contar tudo é de 2003, e é mais recente ainda a legislação que inclui o percentual de gordura trans nas embalagens. O consumidor está aprendendo aos poucos a buscar essas informações, e ainda deve levar mais um tempo para aprender a exigir. É uma questão de insistir na criação de uma nova cultura. Tudo começa com o primeiro passo.

(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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