12 de nov de 2009

O médico e o músculo

– Então, doutor. Já faz algum tempo que eu sinto uma dor nos joelhos. Especialmente durante determinados exercícios. Correr eu só consigo por uns 40 minutos; depois disso começa a doer. Também doi na cadeira flexora e... O senhor conhece os aparelhos de musculação?

– Alguma coisa.

– Bem... Então... Outro dia fui fazer o exercício na cadeira flexora e doeram os dois joelhos. Como eu sentia essa dor nesse mesmo exercício fazia tempo, me sugeriram procurar um ortopedista e fazer uma ressonância. O exame está aqui. O senhor veja que diz aí que tenho uma lesão na cartilagem nos dois joelhos e também no osso do direito.

– Isso é muito comum. Essa cartilagem é essa aqui (me mostra uma figura pequena, numa espécie de calendário sobre a mesa), sobre a rótula (nome antigo da patela, acho que ele se esqueceu de se atualizar). A rótula fica passando por um tipo de canal no fêmur e esse movimento vai desgastando a cartilagem. Senta ali pra eu te mostrar. Aqui, olha. A rótula vem para o lado e deveria ficar aqui no meio. Numa cirurgia, a gente puxa a rótula para cá e...

– Doutor, eu não vou fazer cirurgia. Eu quero corrigir isso com exercício, sabe? Eu preciso saber que tipo de exercício eu preciso fazer para corrigr o movimento e não machucar mais.

– Você precisa fortalecer essa musculatura aqui do lado de dentro da coxa, pra ela manter a rótula no centro.

– Que tipo de fortalecimento? Porque eu já tenho o músculo forte. Faço musculação três vezes por semana; fortalecimento é o que eu mais faço na vida, doutor.

– Eu vou te prescrever uma fisioterapia aqui na clínica e eles vão te explicar lá.

– Doutor, eu gostaria de entender qual é o papel desse fortalecimento muscular sobre a articulação. Se meu músculo já estiver suficientemente forte, será que vai mudar alguma coisa?

– A fisioterapeuta vai te explicar.

– E o senhor não pode me explicar?

Não, ele não podia. Um ortopedista generalista, não especializado em joelho, não familiarizado com o mundo do esporte, claramente desinteressado do meu caso, não tinha a menor condição de me explicar coisa alguma, nem tinha a coragem de me dizer que era o médico errado para me avaliar. Fiquei com a impressão de que ele estava ali meramente para me encaminhar para a fisioterapia, que talvez fosse a principal fonte de lucro da clínica. Fiquei esbravejando silenciosamente contra meu plano de saúde, que não possuía entre os credenciados médicos especializados em esporte que pudessem pensar em me tratar com exercícios muito antes de falar a palavra cirurgia. Ou no mínimo um médico atencioso que não me usasse para dar pacientes para os fisioterapeutas.

 Meu mau humor piorou quando cheguei à sala de fisioterapia. A sala de espera estava ocupada por pessoas de semblante desmoronando, não sei se pela dor ou pelo aborrecimento de esperar sem saber a que horas seriam atendidas. E olha que não era hospital público. Ali não há hora marcada; o atendimento segue a ordem de chegada. E, segundo as orientações do médico preguiçoso, eu deveria assinar a ficha de entrada e esperar (indefinidamente) o que quer que fosse acontecer numa daquelas “tendas” formadas por cortinas grossas e divisórias.

Chamei a moça do balcão num canto e falei:

– Escuta, eu não sei se vou fazer a sessão hoje. Gostaria de conversar com a fisioterapeuta para saber como é. Preciso saber que tipo de exercícios eu posso fazer na academia em vez de vir aqui.

Ela leu o que estava escrito no pedido médico. Disse que minhas primeira sessões seriam de choquinhos e umas microondas indolores. Só lá pela terceira sessão é que eu começaria com exercícios.

– Sabe o que é? Eu acho que isso aí não vai funcionar. Minha dor é crônica.

Aí a coisa mudou. A moça resolveu explicar meu caso à fisioterapeuta e me conseguiu uma conversa prévia com ela. Quando a doutora finalmente me atendeu, senti que não estava mais jogada no calabouço. Ela olhou meus exames e me falou com seriedade que eu precisava passar por um especialista. Me indicou um médico de outra clínica, segundo ela muito competente inclusive em matéria de atletas, e que felizmente atende pelo meu convênio. Eu deveria voltar ali, sim, para as sessões de fisioterapia, mas sem choquinhos nem microondas. Meu caso era mesmo de exercício, e eu deveria priorizar os que ela iria me passar e dar uma acalmada na rotina de musculação. O médico indicado por ela haveria de me dar todas as orientações sobre os esforços a evitar e o tipo de tratamento.

Sei que a medicina do esporte é uma especialidade ainda não regulamentada, mas praticada por profissionais que buscam incorporar os conhecimentos do mundo do esporte e da educação física aos tratamentos de saúde. Centenas de pesquisas nos últimos anos têm relacionado a prática física a inúmeros benefícios para a saúde, ao mesmo tempo em que estudos mais sérios no campo do esporte têm apontado cuidados mais eficazes contra lesões nas pessoas que não sofrem de sedentarismo. O corpo precisa de uma certa dose de movimento para ficar bem, e essa dose é uma medida ainda um tanto misteriosa para cada pessoa. Especialmente porque, conforme os estudos têm sugerido, não existe uma dose única que sirva para todo mundo. Cada um tem a sua.

As pessoas amuadas naquela sala de espera da clínica de ortopedia talvez tenham aceitado passiva e pacificamente o sistema da clínica. Talvez elas aprovem, ou simplesmente acatem, as palavras do médico e seu encaminhamento para as sessões de choquinho. Ou talvez só eu tenha tido o azar de passar pelo médico errado. Só sei que tive de contar com um certo conhecimento no assunto e uma grande disposição para reclamar para conseguir um atendimento mais de acordo com as minhas necessidades – em vez de simplesmente atender as necessidades da clínica.

Na saída, pedi o telefone do tal médico bom para agendar consulta. E a atendente respondeu, tirando sarro:

– Pra paciente chata a gente não passa telefone.

Era brincadeira com fundo de verdade. Ela cutucou, mas me deu o telefone da outra clínica. E, satisfeita, agradeci:

– Paciente chata consegue muita coisa.


(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)

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