17 de ago de 2011

Disciplina é poder


Obrigar-se a seguir determinadas ordens e abrir mão de certos prazeres não é sacrifício coisa nenhuma – desde que seja em nome de recompensas de maior valor


Quero voltar ao tema das revistas que prometem receitas para “emagrecer sem sacrifício” ou coisa do gênero. Por que reforçar a ideia de que cuidar de si mesmo é sacrifício? Afinal, fazer exercício e comer direito é se cuidar, não é? É assumir para si a responsabilidade de promover o pleno funcionamento do corpo em vez de delegar a quem quer que seja (à indústria de alimentos, às clínicas de estética, aos médicos, aos shakes milagrosos e às próprias revistas) a incumbência de determinar o que cada um deve ou não fazer com as próprias células. Zelar pelo próprio bem-estar não deveria ser encarado como sacrifício. Como obrigação, sim. Mas obrigação e sacrifício não são sinônimos.


Todo tipo de promessa do tipo “faça isso e seus problemas acabaram” levam à falsa ideia de que entregar ao outro a tarefa de resolver o problema por você é um alívio. Os médicos que tratam obesos costumam observar que os pacientes chegam ao consultório com pedidos do tipo “emagreça-me”. Acontece que o problema de quem está querendo “ser emagrecido” é justamente esse: acreditar que a solução vem de fora. Mas a solução vem de dentro e se chama disciplina.

Disciplina no sentido de decidir cuidar de si mesmo e estabelecer para si mesmo regras de conduta. Foi o que fiz anos atrás, depois de ter lido um bocado de matérias de revista, visto inúmeros programas de TV sobre alimentação e saúde e entendido os conselhos que recebi da família desde a infância. Quando me vi crescidinha o bastante para poder dizer que era dona do meu nariz, me vi também crescidinha o bastante para ser dona da minha composição corporal, do meu colesterol, da minha glicemia e de todos os indicadores de saúde que eu pudesse controlar por meio do meu comportamento.

Esse controle tornou-se tão importante para mim que fiquei um tanto militaresca. Pelo menos com relação ao que posso fazer pelo meu corpo, trato-me quase como um soldado. Imponho-me horários e rotinas. Obrigo-me a ir à academia determinados dias toda semana. Restrinjo meus prazeres gastronômicos. Obedeço a regras escolhidas por mim para montar todas as refeições. Sigo orientações rígidas (também definidas por mim) nas compras de supermercado. Eu diria que organizo todas as minhas atividades em função da minha saúde. Mas, para mim, isso não é sacrifício. É poder.

Quando me obrigo a comer várias frutas todos os dias, sei que estou trazendo benefícios para minha digestão e me alimentando de boas fontes de açúcar. Sei que, com isso, contribuo para um bom metabolismo energético e controlo meu peso corporal. Portanto, ganho poderes sobre minha nutrição. E eu amo frutas. É um prazer ter de comer tantas.

Quando restrinjo o consumo de chocolate a dois quadradinhos na sobremesa, evito o excesso de açúcar e gordura no meu sangue e me dou o poder de ter saúde suficiente para comer chocolate sempre.

Quando me obrigo a fazer exercícios pesados, semana após semana, ano após ano, sei que estou evitando inúmeras doenças, preparando meu aparelho locomotor para atividades necessárias e agradáveis do meu dia a dia e prevenindo efeitos horrorosos do envelhecimento. Eu tenho pavor de um dia não poder me mexer direito, e os exercícios (se bem feitos) me dão o poder de me mexer direito por muitos anos. Além disso, o esforço desenha minha silhueta com resultados satisfatórios. Logo, fazer exercícios pesados também me dá o poder de não ser flácida.

Quando vou para a cama antes da minissérie e da balada e acordo pelo menos sete horas depois, sei que estou permitindo que meu corpo reconstrua o que o exercício destruiu (é pra isso que ele serve: para destruir e promover reconstruções) e normalize todos os processos. Ao dormir bem e recusar certos lazeres, me dou o poder de acordar mais pronta para os dias seguintes.
Por mais que eu deixe de curtir coisas boas em nome das regras que adotei para mim, não encaro nada disso como sacrifício. Porque as coisas boas que deixei para trás não são melhores, no longo prazo, que aquelas que estou garantindo para mim por meio da disciplina. O prazer de comer porções maiores de chocolate não substituiria o meu prazer de estar em forma. Para mim, é assim. Foi a escolha que fiz. E é um alívio ter minha saúde sob controle. E me acostumei tanto a entendê-la como responsabilidade minha que, quando pego um resfriado, me sinto culpada.

Encontrei eco nesses pensamentos lendo o livro recém-lançado da Marília Coutinho, Estética e Saúde (Phorte Editora, 2011). A Marília é, entre outras coisas, uma pensadora e pesquisadora das relações do corpo com a saúde (mental, inclusive). Campeã de levantamento de peso, ela encontrou no esporte motivos muito fortes para a disciplina. Afinal, para erguer as cargas que ela levanta, é preciso ter uma alimentação muito regrada, dormir bem e se concentrar inteiramente nos movimentos. Mas o livro não trata do levantamento de peso, e sim do quanto a sociedade tende a nos alienar de nosso corpo, ao nos fazer crer que o corpo pode ser terceirizado. Para a Marília, é essa alienação que permite que tanta gente espere “milagres” ou busque “soluções” tão externas (como lipoaspiração, cirurgias de redução do estômago e outras intervenções agressivas) para problemas que só podem ser resolvidos de fato de dentro para fora.

Eu e a Marília (se bem a entendi) acreditamos que, uma vez que a gente assume a responsabilidade sobre o próprio corpo (voltando a integrá-lo, como ela diz) e adota a disciplina necessária para manter a saúde sob controle, a gente se torna automaticamente imune a todo tipo de interferência. Funciona como uma blindagem. À publicidade, por exemplo. Não tem mais como acreditar cegamente na propaganda do alimento XYZ se você souber direitinho que tipo de alimento vai te fazer bem de verdade. A disciplina também pode blindar contra os cardápios desequilibrados nos restaurantes: eu quase nem enxergo a parte onde não há vegetais. E também não restarão mais desculpas. A partir do momento em que você é o responsável, não cabem mais frases bobinhas do tipo “mas é light!”. Porque você não terá mais falsos aliados na indústria da mentira. A ingenuidade vai toda embora.

Então a famosa frase do tio do Homem-Aranha (“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”) pode ser invertida. Ser dono do próprio nariz e da própria composição corporal pode ser uma responsabilidade e tanto, que envolve decisões importantes ao longo da vida (leia também Negociar é preciso). Mas o poder quem vem junto é tão compensador que, uma vez experimentado, não dá mais pra viver sem.

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