30 de jan de 2012

O que fazer com nossos vícios

Render-se aos hábitos que aliviam aflições ou buscar prazeres mais saudáveis e duradouros?


Uma das coisas que eu menos entendo sobre as pessoas são seus vícios. Perceba que escrevo na terceira pessoa. Nunca me pareceu que eu tivesse um. Quer dizer... É verdade que já me vi precisando comer um chocolate, sem conseguir que a vontade passasse. Mas não me preocupa minha necessidade de chocolate porque sempre me safisfaço com pouco. OK, há exceções. O bolo de aniversário do meu primo mais novo no ano passado estava tão bom, mas tão bom, que eu não resisti a comer alguns pedaços...

Mas daí a não passar um dia sem comer doce ou tomar refrigerante eu acho que há uma boa diferença. Conheço gente que anda para cima e para baixo com uma garrafa de dois litros de coca-cola, quase como um fumante que tem seu maço de cigarros sempre à mão. Não consigo entender o que torna as pessoas assim tão dependentes de qualquer coisa que não seja fisiológica. Será meramente o prazer? Mas que prazer é esse que traz tantas consequências nefastas?



Outro dia somei o número de "prazeres indispensáveis" que consigo detectar numa pessoa próxima. Eram sete: cafeína (café de manhã, coca-cola à tarde e à noite), açúcar (geralmente acompanhado de gordura), televisão, consumo (principalmente de calçados e aparelhos eletro-eletrônicos), morder os próprios dedos (às vezes até sangrar), álcool e maconha. E olha que, ultimamente, a maconha me parece o menos preocupante deles.

Alguém pode me perguntar por que me preocupo, se a pessoa leva uma vida normal, trabalha direitinho, faz exercícios, tem lazeres, amigos, namorada, e parece razoavelmente feliz. É que desconfio que a pessoa recorre às suas fontes de "prazer" preferidas não só porque são gostosas, mas porque elas aliviam algum desconforto difícil de suportar. E é esse suposto desconforto, e mais especialmente a solução que se dá para ele, o que me preocupa.

Sempre pensei que quem usa drogas regularmente para se divertir ou se sentir melhor está substituindo com elas algum prazer mais natural que deveria conseguir de outro jeito. Tipo vivendo, cultivando relações satisfatórias, dedicando-se a atividades que tragam sentido à vida, buscando se conhecer em profundidade e indo atrás da realização de seus desejos mais verdadeiros. Essa substituição me parece tão triste. Será que ela basta?

Também sempre enxerguei as compulsões alimentares e a obesidade mais ou menos do mesmo jeito. Acho triste que tanta gente só se satisfaça com sabores acentuados (de açúcar e gordura) e não consiga apreciar sabores suaves. Não só porque o excesso de alimentos desse tipo atrapalha o funcionamento do corpo e compromete a silhueta, mas principalmente porque a incapacidade de apreciar essas tonalidades intermediárias de sabor me parece uma incapacidade de se dar prazeres melhores.

Flagra no supermercado no domingo à noite. Vício em sal e açúcar ou não?

Felizmente, há tratamentos de obesidade pautados no trio reeducação alimentar-exercício-psicoterapia, que partem do pressuposto de que a pessoa só consegue mudar seu estilo de vida se antes mudar sua maneira de pensar e administrar as próprias emoções. Também já se levantou a hipótese de tratar a obesidade como se fosse um vício em drogas, com 12 passos e tudo. Será?

A neurocientista carioca e fofa Suzana Herculano-Houzel tem um livro só sobre os vícios, chamado Sexo, drogas, rock'n roll... & chocolate, escrito em 2003. Ela coloca todos os vícios num saco só: o saco do tal sistema límbico do cérebro. De açúcar a videogame, todas as coisas que viciam, segundo os estudos que ela examinou, mexem com um mecanismo de recompensa domindo por neurotransmissores e hormônios que mais parece adestramento de cães.

Assim: cada vez que você agrada a si mesmo com alguma coisa especialmente muito gostosa, esse sistema fica ouriçado e registra uma mensagem assim: consiga esse prazer de novo, por favor, e o quanto antes. Aí a pessoa fica viciada em obter esse prazer específico toda hora, como se não houvesse outras coisas na vida saborosas o bastante.

Só que não é do nada que as pessoas se apegam desse jeito a prazeres específicos. Suzana diz que só há formação de vício na presença de estresse. Ou seja, a resposta exagerada ao estresse está ligada à facilidade de instalação de um vício. "Por alguma razão, o cérebro usa a presença de hormônios do estresse como condição sine qua non para se deixar viciar", diz ela no livro.

Nem é todo tipo de pessoa que se vicia facilmente. Quer dizer, não sei se checaram esse dado com humanos, mas estudos com ratos e macacos (a quem se ofereceu cocaína ou anfetamina) indicam que há indivíduos mais propensos que os outros a se deixar levar pelas armadilhas do sistema límbico.

"Os animais responsivos, predispostos ao vício, eram aqueles que reagiam a um novo ambiente com agitação e locomoção constantes e buscavam novidade, variedade e estimulação emocional. Ao contrário, os não-responsivos, que não se viciam, ficavam tranquilos num canto. Até exploravam o novo ambiente, mas sem ficar para lá e para cá feito os outros."

Quer dizer, identificar qual o nosso padrão de comportamento em situações novas ou estressantes poderia ser um começo para evitar o tipo de prazer que tende a viciar. A pessoa que citei acima sabe disso e já me disse que só não compra um videogame porque tem certeza de que passaria horas demais jogando.

Suzana conclui que se cada um tiver o controle de sua própria vida, o direito de não ser agredido ou estressado, comida à vontade e diversão, não haverá porque ter vícios. Bem... não me parece algo exatamente simples.


Eu não sou sempre feliz, mas também não fico necessariamente mais feliz comendo mais doces ou tomando mais vinho. E você, fica?

Um comentário:

fabio menezes disse...

o habito é o que entorpece o homem." Beckett