23 de fev de 2012

Dicas de saúde fáceis de ler, mas difíceis de engolir


Que tipo de jornalismo pode de fato ajudar o público a ter mais saúde?

Eu tenho uma birra antiga com o jornalismo em revistas. Mais especificamente com o tipo de revista que traz promessas na capa. Promessas do tipo “7 dicas infalíveis para entrar em forma” ou “Perca peso comendo chocolate”. Sempre achei que o modo imperativo da conjugação verbal não era adequado para capas de revista. Afinal, tudo que diz “faça”, “perca”, “coma”, siga” está, no meu ver, sugerindo que o interlocutor (no caso, os leitores da revista) aceite passivamente o que está escrito como verdade e obedeça sem questionar. Não gosto disso, não concordo e evito sempre que posso. E é por isso que não estou trabalhando em nenhuma revista com esse perfil. Mas infelizmente é esse tipo de chamada de capa que mais ajuda a vender revistas.


Diversas pesquisas mostram que os compradores de revistas adoram dicas na forma de números, por exemplo. Os editores de revistas sabem disso e vivem inventando pautas baseadas em números. 52 Maneiras de conquistar o gato. 237 posições sexuais. 10 coisas que você jamais deve dizer ao seu chefe. Não porque para resolver este ou aquele problema só exista um determinado número de soluções, mas porque os números dão a impressão de que a solução é conhecida, é simples e há um roteiro a ser seguido.

No livro Wrong: Why Experts Keep Failing US – And How to Know When Not to Trust Them (que não foi publicado em português, mas na tradução poderia se chamar Errado: Por que os especialistas continuam falhando conosco – e como saber quando não confiar neles), o jornalista David H. Freedman faz uma lista dos tipos de conselhos de especialistas que mais atraem o público leigo – e que portanto mais aparecem na mídia. Freedman diz que os números são muito usados porque “acrescentam um senso de precisão e autoridade à observação, ainda que inteiramente ilusória”. E é disso que o público gosta. Veja só os outros tipos de conselho procurados pelo público leigo, segundo Freedman:

Direto ao ponto. O público gosta de respostas claras, absolutas, sem ponderações que compliquem o entendimento e a ação. Qualquer relativização do tipo “há casos em que não é bem assim” atrapalha tudo. O público quer dicas que sirvam pra todo mundo. Mesmo que elas não existam.

Sem dúvidas. Ai do especialista que não tiver certeza: ele nem entra na matéria. Apesar daquele ditado que diz que os idiotas sempre têm certeza.

Universal. Imagina ter de dar um tipo de dica diferente para cada fatia populacional! Não é viável. Então é sempre melhor tirar o denominador comum e simplificar.

“Para cima”. Nada de dicas desanimadoras ou que sugiram que algo que o público goste de fazer está muito errado. Freedman cita o que acontecia nos anos 50 quando começaram a aparecer evidências de que o cigarro causava câncer: as pessoas simplesmente não acreditavam.

Praticável. Se não for fácil para qualquer um seguir as dicas, elas não servem.

Palatável. Não adianta querer derrubar paradigma. É querer muito esperar que o público que gosta de respostas prontas queira de fato mudar o modo de pensar.

Freedman deixa claro: os especialistas que dão dicas desse tipo não são os mais confiáveis. Os especialistas realmente bons, aqueles com quem você pode contar quando descobre ter uma doença grave, são os que têm inúmeras dúvidas, não são capazes de prever o que vai acontecer em todos os casos e só dão respostas que incluem uma lista de ponderações.

Já me aconteceu de sair para rua com uma pauta encomendada pela editora, dessas em que a intenção era dar dicas fáceis, e voltar com respostas cheias de ponderações. A editora rejeitou. Disse que precisava das dicas fáceis. Consultei outras fontes e obtive novamente respostas ponderadas. A editora preferiu derrubar a pauta, porque aquilo era chato demais para publicar. “Tudo bem”, disse eu. “Mas eu prefiro o chato.”

Muito bem. Está claro o que é que os editores de revistas que têm como objetivo principal vender muitas revistas precisam fazer para se manter no cargo. Mas me pergunto se esse tipo de dica é capaz de ajudar os leitores a solucionar seus problemas. Será que o objetivo das revistas também é ajudar os leitores? Ou elas não se importam de iludi-los?

Mas veja bem, Francine, as revistas também costumam se basear no que a ciência está dizendo. Elas citam estudos e tal. Não estão sempre inventando moda. Certo?

Bem... O que Freedman (e outros autores interessantes que venho encontrando) traz em seu livro é que as publicações científicas também selecionam artigos com base no impacto que causarão ao seu público, e nem sempre colocam o rigor científico acima das frases de efeito. Assim: quanto mais cara de grande descoberta o estudo submetido à revista tiver, mais chance ele tem de ser publicado. E, na lógica que Freedman apresenta, quanto mais cara de grande descoberta o estudo tem, mais chance ele tem de estar errado. Oh yeah.

As revistas de banca, por sua vez, adoram chamadas de impacto com cara de grande descoberta e não perdem tempo em publicá-las. Se a revista científica deixou passar, quem é o editor de revista leiga que vai se importar em investigar o método científico usado, né? Ou seja: na lógica de Freedman, estamos engolindo um monte de bobagem como se fossem de fato grandes descobertas científicas.

O tipo de jornalismo de saúde que eu admiro não procura entregar de bandeja dicas supostamente fáceis de seguir, nem supõe que o público vá se contentar com elas. Nem acho que um jornalismo puramente baseado nos estudos científicos da semana cumpra o papel de ajudar o público a tomar decisões. Eu valorizo o jornalismo científico de saúde que provoca a curiosidade, a desconfiança e a inteligência do público, dando ênfase às dúvidas, e não às falsas certezas. Eu admiro o jornalismo que ajuda o leitor a pensar, a questionar, a entender a fundo, a manifestar a própria opinião. Não a simplesmente acreditar e obedecer. 

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