Que tipo de jornalismo pode de fato ajudar o público a ter mais saúde?
Eu
tenho uma birra antiga com o jornalismo em revistas. Mais especificamente com o
tipo de revista que traz promessas na capa. Promessas do tipo “7 dicas
infalíveis para entrar em forma” ou “Perca peso comendo chocolate”. Sempre
achei que o modo imperativo da conjugação verbal não era adequado para capas de
revista. Afinal, tudo que diz “faça”, “perca”, “coma”, siga” está, no meu ver,
sugerindo que o interlocutor (no caso, os leitores da revista) aceite
passivamente o que está escrito como verdade e obedeça sem questionar. Não
gosto disso, não concordo e evito sempre que posso. E é por isso que não estou
trabalhando em nenhuma revista com esse perfil. Mas infelizmente é esse tipo de
chamada de capa que mais ajuda a vender revistas.
Diversas
pesquisas mostram que os compradores de revistas adoram dicas na forma de
números, por exemplo. Os editores de revistas sabem disso e vivem inventando
pautas baseadas em números. 52 Maneiras de conquistar o gato. 237 posições
sexuais. 10 coisas que você jamais deve dizer ao seu chefe. Não porque para
resolver este ou aquele problema só exista um determinado número de soluções,
mas porque os números dão a impressão de que a solução é conhecida, é simples e
há um roteiro a ser seguido.
No
livro Wrong: Why Experts Keep Failing US
– And How to Know When Not to Trust Them (que não foi publicado em
português, mas na tradução poderia se chamar Errado: Por que os especialistas continuam falhando conosco – e como
saber quando não confiar neles), o jornalista David H. Freedman faz uma
lista dos tipos de conselhos de especialistas que mais atraem o público leigo –
e que portanto mais aparecem na mídia. Freedman diz que os números são muito usados
porque “acrescentam um senso de precisão e autoridade à observação, ainda que
inteiramente ilusória”. E é disso que o público gosta. Veja só os outros tipos
de conselho procurados pelo público leigo, segundo Freedman:
Direto ao ponto. O público gosta de
respostas claras, absolutas, sem ponderações que compliquem o entendimento e a
ação. Qualquer relativização do tipo “há casos em que não é bem assim”
atrapalha tudo. O público quer dicas que sirvam pra todo mundo. Mesmo que elas
não existam.
Sem dúvidas. Ai do especialista que não
tiver certeza: ele nem entra na matéria. Apesar daquele ditado que diz que os
idiotas sempre têm certeza.
Universal. Imagina ter de dar um tipo
de dica diferente para cada fatia populacional! Não é viável. Então é sempre melhor
tirar o denominador comum e simplificar.
“Para cima”. Nada de dicas
desanimadoras ou que sugiram que algo que o público goste de fazer está muito
errado. Freedman cita o que acontecia nos anos 50 quando começaram a aparecer
evidências de que o cigarro causava câncer: as pessoas simplesmente não
acreditavam.
Praticável. Se não for fácil para
qualquer um seguir as dicas, elas não servem.
Palatável. Não adianta querer derrubar
paradigma. É querer muito esperar que o público que gosta de respostas prontas
queira de fato mudar o modo de pensar.
Freedman
deixa claro: os especialistas que dão dicas desse tipo não são os mais confiáveis. Os
especialistas realmente bons, aqueles com quem você pode contar quando descobre
ter uma doença grave, são os que têm inúmeras dúvidas, não são capazes de
prever o que vai acontecer em todos os casos e só dão respostas que incluem uma
lista de ponderações.
Já me
aconteceu de sair para rua com uma pauta encomendada pela editora, dessas em
que a intenção era dar dicas fáceis, e voltar com respostas cheias de
ponderações. A editora rejeitou. Disse que precisava das dicas fáceis.
Consultei outras fontes e obtive novamente respostas ponderadas. A editora
preferiu derrubar a pauta, porque aquilo era chato demais para publicar. “Tudo
bem”, disse eu. “Mas eu prefiro o chato.”
Muito
bem. Está claro o que é que os editores de revistas que têm como objetivo principal
vender muitas revistas precisam fazer para se manter no cargo. Mas me pergunto se esse tipo de dica é capaz de ajudar os leitores a solucionar
seus problemas. Será que o objetivo das revistas também é ajudar os leitores?
Ou elas não se importam de iludi-los?
Mas
veja bem, Francine, as revistas também costumam se basear no que a ciência está
dizendo. Elas citam estudos e tal. Não estão sempre inventando moda. Certo?
Bem...
O que Freedman (e outros autores interessantes que venho encontrando) traz em
seu livro é que as publicações científicas também selecionam artigos com base
no impacto que causarão ao seu público, e nem sempre colocam o rigor científico
acima das frases de efeito. Assim: quanto mais cara de grande descoberta o
estudo submetido à revista tiver, mais chance ele tem de ser publicado. E, na
lógica que Freedman apresenta, quanto mais cara de grande descoberta o estudo
tem, mais chance ele tem de estar errado. Oh yeah.
As
revistas de banca, por sua vez, adoram chamadas de impacto com cara de grande
descoberta e não perdem tempo em publicá-las. Se a revista científica deixou
passar, quem é o editor de revista leiga que vai se importar em investigar o
método científico usado, né? Ou seja: na lógica de Freedman, estamos engolindo
um monte de bobagem como se fossem de fato grandes descobertas científicas.
O
tipo de jornalismo de saúde que eu admiro não procura entregar de bandeja dicas
supostamente fáceis de seguir, nem supõe que o público vá se contentar com
elas. Nem acho que um jornalismo puramente baseado nos estudos científicos da
semana cumpra o papel de ajudar o público a tomar decisões. Eu valorizo o
jornalismo científico de saúde que provoca a curiosidade, a desconfiança e a
inteligência do público, dando ênfase às dúvidas, e não às falsas certezas. Eu
admiro o jornalismo que ajuda o leitor a pensar, a questionar, a entender a
fundo, a manifestar a própria opinião. Não a simplesmente acreditar e obedecer.
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