6 de fev de 2012

Não procure emprego. Procure aliados

Salário bom é aquele que te dá a chance de fazer o bem



Não sei se é a época, se é coincidência ou se são minhas "antenas" que estão mais atentas ao fato. Ocorre que, aparentemente, cada vez mais pessoas que admiro estão desencanando de contar com a "tranquilidade" garantida por um emprego fixo e preferindo trocá-la pelo risco de ficar algum tempo (ou uma vida) procurando algo melhor para fazer.

Ano passado, três colegas da empresa em que eu estava disseram um voluntário e feliz adeus a todos e optaram por se dedicar à profissão de um modo mais livre, bonito e engajado. E aceitando ganhar menos dinheiro.

Semana passada, finalmente, um amigo que sonha ser bem mais artista do que conseguiu ser até agora, depois de muito insistir, foi desligado do empreguinho maçante em que estava (voluntariamente) preso havia uns quatro anos. Diz que está ao mesmo tempo aliviado com a repentina liberdade e apreensivo, pois não tem planos muito exatos para o futuro que já começou. Sabe que tem algo especial a realizar, mas não sabe bem como começar.

Esta tarde reencontrei por acaso um rapaz que já mudou de profissão algumas vezes na vida. Era personal trainer quando o conheci, passou a ator e agora está cheio de projetos como diretor de um cinema que só é possível em tempos de internet. Está declaradamente mais "pobre" do que antes, mas visível e audivelmente mais verdadeiro e empolgado. Ele acredita tanto no que está criando que simplesmente não para de falar sobre suas ideias, com olhos brilhantes e uma assertividade de quem tem certeza de estar fazendo a coisa certa. E ousa comemorar o que lhe parece ser o começo do fim do capitalismo.

Sonhadores, sim. Admiráveis sonhadores que ousam, finalmente, fazer a vida valer a pena. Custe o que custar.

Que não se confunda essa opção com uma vida franciscana, de renúncia a todo tipo de conforto material. Todo mundo precisa de grana para viver nesta cidade cara. A questão é até que ponto vale a pena renunciar às outras coisas importantes em nome de uma recompensa apenas material.

Acompanho nas mídias sociais a oferta de vagas de trabalho para profissionais de comunicação e vejo que há quilos de gente desesperada para arrumar um emprego, seja ele qual for. Deve haver quem molde o currículo conforme as vagas oferecidas (quem nunca fez isso?) e aceite com gosto se dedicar a algo que não é exatamente o que gostaria de fazer, em nome do necessário dinheiro para pagar as contas. Compreensível. E, por algum tempo, indicado. Mas fazer isso por tempo indeterminado? Não recomendo.

O problema não é só deixar a felicidade de lado em nome da experiência e do salário. O problema maior é deixar o tempo passar e nunca oferecer ao mundo, à sociedade, aquilo que é necessário oferecer. O grave é abrir mão dessa contribuição importante e necessária em nome dos objetivos de acumulação de lucro da empresa que paga seu salário, especialmente quando essa empresa não é legal.

Me diz qual é a função social de qualquer funcionário da Souza Cruz. Essa que só fabrica cigarros (cancerígenos, claro) e vem defendendo uma conveniente "liberdade de expressão" em propagandas na mídia. Essa empresa faz algum bem à sociedade (além talvez de dar emprego a alguns milhares de pessoas)? Será que vale a pena trabalhar lá? Eu não trabalharia, nem por um milhão de dólares. Não seria lindo se todos ali resolvessem pedir demissão em massa, em nome de um ofício mais útil e benéfico, e a empresa deixasse de existir?

Onde vale a pena trabalhar? Não acho que seja apenas naquelas empresas que aparecem na lista da revista Época ou da Exame todo ano, que têm programas de qualidade de vida, incentivos ótimos, planos de saúde generosos e programas de aperfeiçoamento. Para valer a pena mesmo, na minha visão, a empresa tem de fazer o bem. Pensando em todos os seres humanos e no planeta, não só nos seus funcionários, clientes e consumidores.

Agora há pouco, uma das colegas que se demitiram no ano passado me contou que está voltando a uma redação, depois de cinco meses freelando e acreditando que queria mesmo era ser psicanalista - ou pelo menos ser jornalista de um jeito que não lhe parecesse tão errado. Eis que apareceu uma proposta para trabalhar com o que ela considera "jornalismo do bem", e ela topou.

Procurar emprego deveria ser como namorar. A gente só casa com quem a gente ama, e a gente só ama quem tem muita coisa em comum com a gente, e cujos defeitos a gente tolera porque não são, digamos, graves. Deveríamos investigar as empresas que nos parecem bacanas, não só para saber se elas pagam bem ou têm um bom plano de carreira, mas também se a missão delas, na prática, tem a ver com a nossa.

Isso pressupõe, claro, ter uma missão própria. Ter a vontade sincera de contribuir com o melhoramento do mundo de alguma forma, aproveitando o que temos a oferecer. Isso pressupõe, também, ter alguma coisa boa a oferecer. Se você já sabe o que tem de bom, ou pelo menos quais os seus potenciais, por favor não procure mais emprego. Procure aliados. Saia à caça de quem tem propósitos parecidos com os seus e procure saber de que maneiras você poderia se juntar a eles para construir alguma coisa boa, importante e necessária.

Agora... Se você é egoísta o bastante para não se importar nem um pouco com os problemas dos outros, e tudo que você quer na vida é acumular capital, fama e poder, aí eu quero mais é que você se exploda. E não consiga nem mesmo um emprego na Souza Cruz.

6 comentários:

25 disse...

Adorei o post. Feliz por você e pela menina psicanalista/jornalista. Saudades.

Carol disse...

Adorei o post e agora vou ler o resto do blog. Descobri você pela comunidade "Jornalistas Freelancers", do LinkedIn, e concordo com tudo o que escreveu. Atualmente estou procurando emprego porque a vida de freela não tá fácil, mas já trabalhei na Volks e quis sair porque não sou a favor de carros. Adorei ver como a sua carreira está bem focada em influenciar as pessoas à adotar um modo de vida saudável. Continue o trabalho!

Bjs,
Carol

Francine Lima disse...

Bem-vinda, Carol. Respondi no LinkedIn, pra quem sabe mais gente poder aproveitar meu comentário. Volte sempre! : )

Anna Carol disse...

Há muito tempo, o menino que mora comigo disse que "precisava de pessoas que acreditam". Acho que foi aí que me apaixonei por ele. Mas eu não sabia. Obrigada por me fazer lembrar disso. Bem, foi o que esse post fez, se não ficou claro. Explico: seu texto me fez ver o que sou e o que me apaixona. Felicidade total é ver que tem gente como a gente. Me estendo. Acho que todos nós precisamos demais das nossas causas. E isso é bom. Imagina que vida vazia, que vida pobre ver o trabalho como algo à parte, separado de você. Você é o que você faz. Embora a gente sempre possa debater isso... rs

Valeria Bordin disse...

Olá Francine ,

Cai aqui no seu blog pelo linkedin - grupo de "Nutrição USP" , onde também estudei, amuito tempo atrás. Li alguns de seus posts e parei nesse sobre empregos & trabalhos. Embora seja de uma geração diferente de vc e seus colegas , compartilho dos mesmos ideais. E quanto a ter parceiros (aliados) é realmente o foco , é o que nos abrem as oportunidades .
Sou nutricionista de formação e hoje estou redescobrindo minha profissão .Depois de mais de 16 anos atuando na área corporativa de grandes empresas no setor de relacionamento com clientes e marketing, , resolvi abrir mão da estabilidade e reencontrar o prazer pelo trabalho agora como nutricionista .Não dá para se engajar ou ser feliz sem acreditar e ter um propósito no que se faz .Na área da saúde , quando falamos de comunicação & educação entendo que ainda há muito a desbravar . É brilhante ter uma comunicadora engajada nessa área. Vejo que o mercado ainda é carente de profissionais com essa qualificação . Sou um pouco o inverso de você, uma nutricionista interessada na comunicação. Um grande abraço e sucesso !

Francine Lima disse...

Que bacana seu comentário, Valeria. É bom demais reencontrar nosso caminho, n;e? Para mim, ir atrás daquilo em que mais acredito era o único jeito de ser feliz e não morrer de desgosto. Espero fazer um bom trabalho. Dicas são sempre bem-vindas. Volte sempre!