Não preciso me expor tanto para saber de que tipo de treino eu preciso
A academia que me desculpe, mas desisti da
avaliação física. Não vou. Quer dizer, vou. Vou para treinar, não pra ser
exposta, medida e comparada com uma versão mais jovem e gostosa de mim mesma.
Eu já sei quais são meus defeitos atuais, não preciso de ninguém registrando
isso no papel.
A primeira vez em que mediram minhas dobras
cutâneas, há 19 anos (é, o tempo passa...), havia justificativa suficiente para
isso, eu acho. Eu era visivelmente magra, mas não sabíamos quanto daquela
magreza era feita de músculos ou de gordura. E eu tinha, descobri, mais gordura
do que podia supor, apenas olhando para o espelho: 18%, por aí (o que ainda é
pouco, eu sei). O avaliador me disse, na época, que eu precisava aumentar minha
massa magra, sem necessariamente aumentar meu peso. Como o que eu queria fazer
era ginástica localizada, me encaixei nos horários das aulas e pronto. O
aumento da massa magra seria o que a ginástica pudesse me proporcionar.
Várias avaliações físicas depois, já
consigo prever quais serão meus resultados e as recomendações do avaliador. Até
porque não estou sedentária e sei muito bem quanta força sou capaz de fazer ou
quanto fôlego eu tenho nas atividades físicas extenuantes que costumo praticar.
Sei também coisas que a avaliação não procura saber, como a quantas andam meu
equilíbrio e minha coordenação motora, minha facilidade de saltar rápido, a
qualidade do meu sono, a diferença de pique que sinto de manhã e à noite, quais
exercícios são mais fáceis e quais são mais difíceis para mim, o quanto mais
rápida eu gostaria de ser, o tipo de gente e o tipo de música com que eu gosto
de treinar, o tédio ou a irritação que me dá ficar esperando o colega desocupar
um aparelho da musculação. Em suma, há poucas coisas que esse tipo de avaliação
física pode me revelar e que eu realmente queira saber.
'Ah, mas o objetivo da avaliação é fornecer
informações ao professor, para que ele possa montar meu programa de exercícios
de acordo com minhas necessidades', alguém pode dizer. Bobagem. Na prática, se eu deixar, eles
verão que meu corpo longilíneo merece mais músculos e vão me propor trocentas
séries de 8 a 12 repetições na musculação, esperando que eu tenha todo o tempo
e a paciência do mundo para gastar entre os aparelhos. Exatamente como fazem com
todo mundo que deseje aumentar pelo menos um pouco a massa magra.
Mas, depois de passar por isso algumas
vezes, ao longo de dez anos dedicados às séries de 8 a 12 repetições na
musculação, eu já não tenho paciência para essa conversa. Resolvi pular algumas
etapas e definir com meus próprios botões o que eu espero do treino novo, a
partir do que já sei sobre meu corpo.
- Continuo magra, com um percentual de
gordura baixo o bastante para uma mulher da minha idade, e continuarei magra enquanto
continuar me alimentando como me alimento e produzindo hormônios normalmente.
No máximo, esse percentual vai subir ou descer um, dois ou três pontos. Já sei
que isso não vai mudar muito nos próximos anos, a não ser que algo muito
diferente aconteça. Como uma gravidez, por exemplo. Mas quando meu percentual
de gordura aumentar mais que três pontos eu certamente vou perceber apertando
eu mesma minha pele. Não preciso de avaliador nem de aparelhinho pra isso.
- Minha capacidade cardiorrespiratória tem
sido classificada como muito boa ou excelente há alguns anos. E, com base no
tipo de treino que andei fazendo nos últimos 11 meses, posso adivinhar que ela
melhorou. Não tenho, portanto, por que me preocupar com ela. É só manter. Muito
menos tenho motivo para perder meu tempo numa bicicleta ergométrica
desconfortável.
- Minha flexibilidade é bastante boa
comparada à dos meus colegas de treino, e isso eu sei não porque ficamos
comparando desempenhos no alongamento, mas porque eu agacho com facilidade,
inclusive com uma perna só, mantendo a postura correta. É no treino que a gente
observa essas coisas. Não preciso de uma régua pra isso.
- Minhas circunferências foram medidas em
casa ontem à noite, com minha própria fita métrica, e eu já sei quantos
centímetros perdi ou ganhei em cada parte do corpo. Não preciso me expor com
shortinho curto e me deixar tocar por um desconhecido para saber que minha coxa
diminuiu. Aliás, isso eu já tinha percebido há tempos na hora de me vestir, na
frente do espelho. Também já sei que meu tônus muscular já foi melhor do que
está hoje, e é por isso que quero voltar a fazer certos exercícios que eu tinha parado de fazer.
Se eu estivesse bem pior do que estou (com
percentual de gordura alto, flacidez, baixa capacidade cardiorrespiratória), a
avaliação física talvez servisse para terminar de destruir minha autoestima e
acrescentar argumentos aos que eu já tivesse acumulado em favor de uma rotina
mais caprichada de exercícios. Como sei que estou bem, mas nem tanto quanto já
estive, em alguns aspectos, posso prever que um dos meus objetivos com o treino
deve ser manter o que já conquistei e recuperar o que de bom eu perdi. Quem é
que sabe como foi que eu conquistei o que tenho hoje e como foi que eu perdi o
que já tive? Sou eu que sei. Fui eu que treinei, fui eu que suei, fui eu que
senti as dores e os prazeres, fui eu que aprendi com os professores que me
ensinaram. Então eu sei como melhorar daqui para frente.
O que eu não sei é montar programas de
exercícios, planejar a progressão e a periodização, prever quão rapidamente eu
posso conquistar melhores resultados, avaliar se minha técnica de execução está
perfeita. Para isso, sim, eu ainda preciso de um profissional. Então, em vez de
avaliação física, vou é ter uma boa conversa com o professor que melhor puder
fazer por mim o que eu não sei. Enquanto não descubro quem é essa pessoa, estou
consultando vários, testando treinos e avaliando quem sabe mais sobre o que eu
quero fazer. Afinal, não é só a academia que tem de saber como extrair o melhor
dos alunos. Os alunos também precisam saber como extrair o melhor da academia.