Esse vídeo é forte e exagerado nas imagens. Mas passa o recado.
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26 de fev. de 2013
26 de abr. de 2012
27 de fev. de 2012
Como fugir da comida ultraprocessada
Aprender um pouco mais de culinária e história parece ser a solução mais democrática
Neste final de semana, resolvi cozinhar o feijão de um jeito diferente, e fui buscar ajuda num livro de receitas que eu raramente abro. É um livro só sobre grãos. Ele não só dá receitas: também ensina como preparar os mais diversos tipos de grãos a fim de obter os melhores efeitos na saúde. Por exemplo, fala do tempo necessário para cada grão ficar de molho na água, o tempo de cozimento, os teores de proteínas e fibras. Além de descobrir que costumo fazer muita coisa errada (não é à toa que ainda não consegui fazer um feijão delicioso), percebi que, apesar dos esforços e da atenção constante, estou muito longe de ter uma dieta adequada.
Neste final de semana, resolvi cozinhar o feijão de um jeito diferente, e fui buscar ajuda num livro de receitas que eu raramente abro. É um livro só sobre grãos. Ele não só dá receitas: também ensina como preparar os mais diversos tipos de grãos a fim de obter os melhores efeitos na saúde. Por exemplo, fala do tempo necessário para cada grão ficar de molho na água, o tempo de cozimento, os teores de proteínas e fibras. Além de descobrir que costumo fazer muita coisa errada (não é à toa que ainda não consegui fazer um feijão delicioso), percebi que, apesar dos esforços e da atenção constante, estou muito longe de ter uma dieta adequada.
14 de fev. de 2012
Comida ou truque ilusionista?
Com a ajuda do trabalho de gente talentosa, talvez como você, a indústria vicia o mundo em junk food
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Numa ótima reportagem do programa 60 Minutos, da americana CBS News, um jornalista veterano vai conhecer de perto a indústria de aromas e sabores aplicados em alimentos processados. As imagens mostram os inúmeros vidrinhos de "perfume comestível" desenvolvidos em laboratório por pesquisadores especializados em farejar e copiar aromas encontrados em frutas, carnes e outros alimentos da natureza.
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Numa ótima reportagem do programa 60 Minutos, da americana CBS News, um jornalista veterano vai conhecer de perto a indústria de aromas e sabores aplicados em alimentos processados. As imagens mostram os inúmeros vidrinhos de "perfume comestível" desenvolvidos em laboratório por pesquisadores especializados em farejar e copiar aromas encontrados em frutas, carnes e outros alimentos da natureza.
27 de jan. de 2012
Dúvidas sobre rótulos?
Este post foi publicado originalmente na minha coluna na Época online em maio de 2010, com o título Comida maquiada. Republico-o aqui para fazer uma provocação e ao mesmo tempo um convite. Quero retomar minhas análises de rótulos de
alimentos e estou aceitando sugestões. Quais são suas dúvidas na hora
de comprar alimentos embalados? Mande para cá suas perguntas, que
tratarei de ir atrás de respostas. E assim podemos ir montando uma lista das
mentiras que os rótulos contam. Acho que vai ser divertido.
21 de set. de 2011
A mesma comida, 6 interesses distintos
De
acordo com pesquisas de mercado, os consumidores de alimentos saudáveis não estão
todos em busca do mesmo benefício
Agora entendi por que meu namorado não se
tornou tão natureba quanto eu, mesmo depois de ter se convertido ao consumo
mais frequente de saladas, arroz integral e granola, sob minha influência. É
que, de acordo com os seis perfis de consumidores indentificados nas pesquisas
da Health Focus International, eu sou uma discípula, e ele é um investidor.
25 de jul. de 2011
Tempero de restaurante
E se o lugar onde você almoça não faz a comida de acordo com sua dieta?
Eu já estava ensaiando a pergunta havia
alguns dias, com vergonha de insistir em ser uma freguesa implicante. Afinal,
já tinha avisado duas vezes que havia sal demais na comida. Talvez perguntar na
lata se eles usavam algum tipo de tempero pronto fosse intransigente demais.
Mas eu queria me certificar de que aquele restaurante era uma boa opção para
meus almoços de segunda a sexta. E aquela fartura de molhos e sabores me
parecia suspeita. Estariam ou não usando caldos e temperos industrializados que
eu faço questão de não usar em casa?
23 de jun. de 2011
Concorrentes de mentirinha
Que marca escolher quando as opções
pertencem à mesma empresa?
Não tenho o costume de comprar manteiga,
mas no último domingo resolvi trazer uma para casa, inspirada pelos ótimos
risotos multigrãos com legumes que meu namorado inventa. Não tenho uma marca
preferida de manteiga, até porque manteiga costuma ser mais ou menos tudo
igual, já que é feita meramente de creme de leite pasteurizado com sal. Pra
escolher requeijão, sim, tenho critérios mais precisos, pois os requeijões
parecem ser feitos cada vez mais de ingredientes novos.
(No caso do requeijão, vejo principalmente
o número de ingredientes e o tempo de prateleira. O número de ingredientes me
indica a quantidade de porcarias adicionadas ao que interessa no produto. O
ideal é que esse número seja o mais próximo possível de 4, pois creme de leite,
fermento lácteo, coalho e sal deveriam ser suficientes para fazer um requeijão
decente. O resto é encheção de linguiça pra baratear o custo de fabricação. Já
o tempo de prateleira me indica se há ou não excesso de conservantes. Quanto
maior a distância entre a data de fabricação e a data de validade, subentendo
que será maior a quantidade de conservantes no requeijão. Esses critérios,
aliás, me fizeram deixar de ser fiel a uma marca de que eu gostava muito na
infância.)
Então, diante das várias opções de
manteigas aparentemente iguais no supermercado, parei diante de duas com preço
parecido e que estavam lado a lado: Batavo e Elegê. A diferença de preço era de
cinco centavos. Olhei os ingredientes: exatamente os mesmos nas duas marcas. E
aí reparei num outro dado comum nas duas: o endereço da fábrica. Então as duas
manteigas tinham origem na mesma fazenda? Sim. E não só isso. As duas marcas
pertencem à mesma empresa e, ao contrário do que me pareceu no primeiro
momento, não são concorrentes.
12 de mai. de 2011
Liberdade de escolha?
Não se iluda. Quem decide o que você vai comprar é o mercado
Esta semana, quatro pavilhões da Expo Center Norte estão ocupados pela feira da Apas (Associação Paulista de Supermercados). A feira é gigante, e está lotada de homens de terno e gravata querendo fazer negócios. Todas as grandes marcas de produtos vendidos em supermercados estão lá, expondo novidades. Há também empresas que fornecem sistemas e outras soluções para o varejo. Até bancos participam da feira. Acho que nunca vi tanto poder reunido num lugar só. Paralelamente à feira, há palestras com brasileiros e estrangeiros, entre eles o Ronaldo Fenômeno. Tudo na intenção de tornar o varejo ainda mais bem-sucedido.
Segundo uma palestrante que falou na terça, os supermercados estão ficando tão poderosos quanto as marcas dos produtos que eles vendem. Na análise da americana Natalie Berg, diretora de pesquisa da Natalie Berg Global, quando as lojas eram pequenas e locais, funcionavam como caixas onde os produtos das grandes marcas eram expostos ao consumidor final. Ou seja, não tinham muita importância na escolha dos consumidores. Hoje, num mercado dominado por grandes redes varejistas (Wal Mart, Carrefour, Pão de Açúcar), o varejo pode até decidir não vender mais uma determinada marca, se achar que ela não está de acordo com os seus valores.
Esta semana, quatro pavilhões da Expo Center Norte estão ocupados pela feira da Apas (Associação Paulista de Supermercados). A feira é gigante, e está lotada de homens de terno e gravata querendo fazer negócios. Todas as grandes marcas de produtos vendidos em supermercados estão lá, expondo novidades. Há também empresas que fornecem sistemas e outras soluções para o varejo. Até bancos participam da feira. Acho que nunca vi tanto poder reunido num lugar só. Paralelamente à feira, há palestras com brasileiros e estrangeiros, entre eles o Ronaldo Fenômeno. Tudo na intenção de tornar o varejo ainda mais bem-sucedido.
Segundo uma palestrante que falou na terça, os supermercados estão ficando tão poderosos quanto as marcas dos produtos que eles vendem. Na análise da americana Natalie Berg, diretora de pesquisa da Natalie Berg Global, quando as lojas eram pequenas e locais, funcionavam como caixas onde os produtos das grandes marcas eram expostos ao consumidor final. Ou seja, não tinham muita importância na escolha dos consumidores. Hoje, num mercado dominado por grandes redes varejistas (Wal Mart, Carrefour, Pão de Açúcar), o varejo pode até decidir não vender mais uma determinada marca, se achar que ela não está de acordo com os seus valores.
14 de abr. de 2011
Digite o nome do produto e descubra se ele presta
Como o GoodGuide, um serviço gratuito de comparação de produtos,
pretende forçar os fabricantes a ser mais transparentes com os
consumidores
Esta semana conversei com o pessoal do GoodGuide, um site americano que avalia e compara, gratuitamente, três aspectos da qualidade dos produtos que normalmente o consumidor não consegue avaliar sozinho. Eles avaliam os mais diversos tipos de produtos, de biscoitos a desinfetantes, passando por papinhas de bebê. A partir das informações na embalagem e de algumas pesquisas feitas por terceiros, eles pontuam em que medida cada produto afeta nossa saúde, o meio ambiente e o bem-estar social.
Para saber o que o sistema “pensa” de um produto, basta digitar o nome desse produto no campo de busca do site, ou mesmo no Google. Ou então procurá-lo dentro de sua categoria num dos menus da página inicial. Se o produto estiver cadastrado no GoodGuide, a foto dele aparecerá ao lado de três notas, que correspondem a quão bom ou quão ruim ele é nesses três aspectos que mencionei acima. No caso dos alimentos, ele dá as notas mais altas aos itens mais saudáveis e discrimina os alimentos inegavelmente piores para a saúde. O sistema também faz comparações ótimas dentro de cada categoria de produto e fornece listas do tipo “as piores opções para o café da manhã”, que é para não ter dúvida, por exemplo, de que tipo de pedido do seu filho você deveria recusar prontamente.
Esta semana conversei com o pessoal do GoodGuide, um site americano que avalia e compara, gratuitamente, três aspectos da qualidade dos produtos que normalmente o consumidor não consegue avaliar sozinho. Eles avaliam os mais diversos tipos de produtos, de biscoitos a desinfetantes, passando por papinhas de bebê. A partir das informações na embalagem e de algumas pesquisas feitas por terceiros, eles pontuam em que medida cada produto afeta nossa saúde, o meio ambiente e o bem-estar social.
Para saber o que o sistema “pensa” de um produto, basta digitar o nome desse produto no campo de busca do site, ou mesmo no Google. Ou então procurá-lo dentro de sua categoria num dos menus da página inicial. Se o produto estiver cadastrado no GoodGuide, a foto dele aparecerá ao lado de três notas, que correspondem a quão bom ou quão ruim ele é nesses três aspectos que mencionei acima. No caso dos alimentos, ele dá as notas mais altas aos itens mais saudáveis e discrimina os alimentos inegavelmente piores para a saúde. O sistema também faz comparações ótimas dentro de cada categoria de produto e fornece listas do tipo “as piores opções para o café da manhã”, que é para não ter dúvida, por exemplo, de que tipo de pedido do seu filho você deveria recusar prontamente.
29 de out. de 2009
Embalagens transparentes?
Qual a diferença entre informação e
propaganda? É isso que todos nós precisamos saber ao entrar num
supermercado. Nos últimos anos, a quantidade de informação disponível
sobre os alimentos tem aumentado, disputando espaço com a propaganda e
também se misturando com ela. Palavras como "saudável", "vitaminado" ou
"nutritivo", antes rapidamente entendidas como virtudes, passaram a ser
lidas e ouvidas com mais senso crítico. O consumidor mais bem informado
passou a querer entender melhor o que precisava haver nos produtos para
que merecêssem - ou não - adjetivos como esses. Será que é saudável
mesmo? Tem vitamina suficiente? E então veio o poder público exigir que
os fabricantes dessem ao consumidor um tipo de informação que antes
ninguém tinha: a lista completa de ingredientes e a tabela nutricional
de seus produtos.
Um conjunto de resoluções e portarias criadas no Ministério da Saúde na última década e fiscalizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária determina quais informações devem aparecer no rótulo de cada tipo de produto alimentício. As informações obrigatórias são as que fazem diferença para a saúde das pessoas, como por exemplo a quantidade de carboidrato num produto que poderá ser perigoso para diabéticos. Outra atribuição da legislação de alimentos tem sido restringir o tipo de mensagem que pode aparecer nas embalagens, a fim de evitar que o consumidor seja enganado ou se confunda. As alegações "saudável", "vitaminado" e "nutritivo" já não podem ser incluídas no rótulo sem mais nem menos. Hoje, por lei, tudo que está escrito nas embalagens deve ser verdade. Agora, há palavras certas a usar e tudo que for alegado deve estar de acordo com a tabela nutricional. E com a legislação.
A boa intenção do governo com essa legislação é que os consumidores tirem sozinhos as suas conclusões ao ler as tabelas nutricionais. Seria bárbaro se todo mundo conseguisse interpretar todos aqueles números e decidisse sua compra com base em um conhecimento adquirido por meio dos rótulos. Acontece que, por mais científica que essa informação hoje disponível possa ser, ela nem sempre nos ajuda mais do que a propaganda a fazer as escolhas certas.
Aconteceu comigo pouco tempo atrás. Tinha parado definitivamente de tomar leite de vaca e precisava obter cálcio de outros alimentos. Meu médico havia sugerido tomar leite de soja enriquecido, pois os comuns não têm cálcio. Então eu procuraria a marca que me oferecesse a maior quantidade de cálcio por porção.
Encontrei poucas opções no mercado. Duas delas, do mesmo fabricante. Comparei as embalagens. Os dois produtos tinham o mesmo nome e algumas diferenças gráficas na embalagem, mas eram ambos leite de soja enriquecido. Comparei as duas tabelas nutricionais. Uma delas dizia haver 300 miligramas de cálcio em cada 30 gramas de produto, o que equivalia a 30% das necessidades diárias. A outra versão dizia haver 241 miligramas de cálcio em cada 26 gramas de produto, o que equivalia a 40% das necessidades diárias.
Espere aí, pensei. Como era possível? Como uma quantidade menor de cálcio poderia equivaler a um percentual maior das minhas necessidades diárias? Havia algo de errado ali, imaginei. Ou aquele rótulo estava mentindo, ou alguma informação estava faltando.
Minha hipótese não era que o fabricante mentira -- mentir seria cara de pau demais em tempos de legislação tão rígida. Minha suspeita era que o produto com 241 miligramas de cálcio na porção de 26 gramas trazia no rótulo uma tabela nutricional baseada numa dieta infantil. Afinal, segundo o que eu já havia apurado no meu trabalho, as crianças precisam de menos cálcio do que os adultos. Só isso poderia justificar que menos significasse mais.
Acontece que na embalagem daquele produto supostamente infantil não havia nada, absolutamente nada, que sugerisse que ele deveria ser consumido por crianças e não adultos. Nem uma frase, nem um desenho, nada.
Sem comprar nenhum dos dois, anotei o telefone do SAC para telefonar depois. E, mais tarde, consegui falar com a nutricionista da empresa, que me tirou a teima. De fato, como eu havia deduzido, o leite de soja com menos cálcio era um produto mais adequado para crianças do que para adultos e por isso a tabela nutricional se referia a uma dieta infantil. Mas então por que não avisam isso no rótulo, poxa vida? O motivo, me explicou ela, é que a legislação nova não exige essa informação.
Há pouco tempo, esse mesmo leite de soja com menos cálcio trazia bonequinhos desenhados perto do logotipo, indicando o público-alvo. Não pode mais. A nova legislação proibiu os fabricantes de apelarem para personagens fofinhos como argumento para vender para as crianças. A intenção era boa. Pretendia-se evitar que crianças inocentes e mal informadas fossem seduzidas por propagandas e alegações falsas e induzidas a consumir alimentos nutricionalmente inadequados. De fato, a sedução indecente de menores precisava mesmo de um freio. Mas nem tudo que sorri na embalagem é propaganda enganosa.
Tudo que é mentira merece ser desmascarado. Tudo que é verdade merece ser escancarado. O problema é não colocarem nada no lugar da propaganda e deixarem lá um buraco, um vazio, uma ausência de informação, numa aposta de que o consumidor vai entender tudo sozinho mesmo sem ter feito faculdade de nutrição, mesmo nem tendo terminado o ensino fundamental. É para criança ou não é? Serve para mim ou não serve? Fica mais fácil entender quando a informação vem numa embalagem mais compreensível. Isso, sim, é honestidade com o consumidor.
(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)
Um conjunto de resoluções e portarias criadas no Ministério da Saúde na última década e fiscalizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária determina quais informações devem aparecer no rótulo de cada tipo de produto alimentício. As informações obrigatórias são as que fazem diferença para a saúde das pessoas, como por exemplo a quantidade de carboidrato num produto que poderá ser perigoso para diabéticos. Outra atribuição da legislação de alimentos tem sido restringir o tipo de mensagem que pode aparecer nas embalagens, a fim de evitar que o consumidor seja enganado ou se confunda. As alegações "saudável", "vitaminado" e "nutritivo" já não podem ser incluídas no rótulo sem mais nem menos. Hoje, por lei, tudo que está escrito nas embalagens deve ser verdade. Agora, há palavras certas a usar e tudo que for alegado deve estar de acordo com a tabela nutricional. E com a legislação.
A boa intenção do governo com essa legislação é que os consumidores tirem sozinhos as suas conclusões ao ler as tabelas nutricionais. Seria bárbaro se todo mundo conseguisse interpretar todos aqueles números e decidisse sua compra com base em um conhecimento adquirido por meio dos rótulos. Acontece que, por mais científica que essa informação hoje disponível possa ser, ela nem sempre nos ajuda mais do que a propaganda a fazer as escolhas certas.
Aconteceu comigo pouco tempo atrás. Tinha parado definitivamente de tomar leite de vaca e precisava obter cálcio de outros alimentos. Meu médico havia sugerido tomar leite de soja enriquecido, pois os comuns não têm cálcio. Então eu procuraria a marca que me oferecesse a maior quantidade de cálcio por porção.
Encontrei poucas opções no mercado. Duas delas, do mesmo fabricante. Comparei as embalagens. Os dois produtos tinham o mesmo nome e algumas diferenças gráficas na embalagem, mas eram ambos leite de soja enriquecido. Comparei as duas tabelas nutricionais. Uma delas dizia haver 300 miligramas de cálcio em cada 30 gramas de produto, o que equivalia a 30% das necessidades diárias. A outra versão dizia haver 241 miligramas de cálcio em cada 26 gramas de produto, o que equivalia a 40% das necessidades diárias.
Espere aí, pensei. Como era possível? Como uma quantidade menor de cálcio poderia equivaler a um percentual maior das minhas necessidades diárias? Havia algo de errado ali, imaginei. Ou aquele rótulo estava mentindo, ou alguma informação estava faltando.
Minha hipótese não era que o fabricante mentira -- mentir seria cara de pau demais em tempos de legislação tão rígida. Minha suspeita era que o produto com 241 miligramas de cálcio na porção de 26 gramas trazia no rótulo uma tabela nutricional baseada numa dieta infantil. Afinal, segundo o que eu já havia apurado no meu trabalho, as crianças precisam de menos cálcio do que os adultos. Só isso poderia justificar que menos significasse mais.
Acontece que na embalagem daquele produto supostamente infantil não havia nada, absolutamente nada, que sugerisse que ele deveria ser consumido por crianças e não adultos. Nem uma frase, nem um desenho, nada.
Sem comprar nenhum dos dois, anotei o telefone do SAC para telefonar depois. E, mais tarde, consegui falar com a nutricionista da empresa, que me tirou a teima. De fato, como eu havia deduzido, o leite de soja com menos cálcio era um produto mais adequado para crianças do que para adultos e por isso a tabela nutricional se referia a uma dieta infantil. Mas então por que não avisam isso no rótulo, poxa vida? O motivo, me explicou ela, é que a legislação nova não exige essa informação.
Há pouco tempo, esse mesmo leite de soja com menos cálcio trazia bonequinhos desenhados perto do logotipo, indicando o público-alvo. Não pode mais. A nova legislação proibiu os fabricantes de apelarem para personagens fofinhos como argumento para vender para as crianças. A intenção era boa. Pretendia-se evitar que crianças inocentes e mal informadas fossem seduzidas por propagandas e alegações falsas e induzidas a consumir alimentos nutricionalmente inadequados. De fato, a sedução indecente de menores precisava mesmo de um freio. Mas nem tudo que sorri na embalagem é propaganda enganosa.
Tudo que é mentira merece ser desmascarado. Tudo que é verdade merece ser escancarado. O problema é não colocarem nada no lugar da propaganda e deixarem lá um buraco, um vazio, uma ausência de informação, numa aposta de que o consumidor vai entender tudo sozinho mesmo sem ter feito faculdade de nutrição, mesmo nem tendo terminado o ensino fundamental. É para criança ou não é? Serve para mim ou não serve? Fica mais fácil entender quando a informação vem numa embalagem mais compreensível. Isso, sim, é honestidade com o consumidor.
(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)
3 de mar. de 2009
Finalmente explicaram os "naturais"
Eu tinha essa dúvida há um tempão. E não adiantava ligar pro SAC pra perguntar: eles não conseguiam explicar de uma maneira convincente qual era a diferença entre os corantes e aromatizantes naturais e os artificiais. Quem me esclareceu a questão foi o canadense Joe Schwarcz, aquele que publicou o ótimo "Uma maçã por dia". Agora, no livro "Barbies, bambolês e bolas de bilhar", ele entrega quilos de esclarecimentos vindos da química, e um dos propósitos é mostrar por que estamos tão errados quando acreditamos que "químico" é um adjetivo que confere uma qualidade ruim a algo que um dia foi natural e bom. Schwarcz quer que a gente entenda que tudo nesta vida é química, do funcionamento dos nossos corpos e mentes ao que comemos, ainda que seja a cenoura mais natureba colhida há cinco minutos no fundo do quintal.
Bem, no capítulo "Goela abaixo", para o qual pulei direto por tratar da química dos alimentos, ele fala do papel de certos micróbios na produção de certos produtos. E parte do exemplo da, de novo, maçã. Schwarcz nos apresenta o ácido málico, uma substância QUÍMICA presente NATUALMENTE nas maçãs. É essa substância que dá o tom mais forte do sabor dessa fruta, incluindo a acidez. A indústria de alimentos precisa do ácido málico para fabricar sucos, biscoitos e outras coisas com sabor de maçã. Como ela consegue isso é o que eu sempre quis saber. Bem, vamos por partes.
Se o ácido málico que irá para o suco de caixinha puder ser extraído diretamente de maçãs de verdade, o rótulo do produto poderá trazer a alegação "sabor natural de maçã". Mas essa não é uma opção muito viável, porque o processo de extração do ácido málico das frutas é muito caro e nada prático. Imagine quanto custaria um litro desse suco.
A indústria costuma tirar o ácido málico de um meio de produção mais barato: fungos. O fungo Rhizopus nigricans trabalha de graça para a indústria se receber glicose em troca. Bem alimentado com glicose, o fungo fabrica ácido málico como resíduo metabólico. E de onde a indústria tira a glicose? Compra no mercado? Não. Pega de outro fungo, o Aspergillus niger, em troca de amido, que é fácil e barato de conseguir. O suco feito com esse ácido málico vindo da "barriga" do fungo ainda pode ser rotulado como natural. E por quê? Só porque fungos são seres naturais. Não interessa se a indústria usou tecnologia, máquinas e linhas de produção. Ela tem, pela legislação, o direito de rotular dessa maneira.
Só quando o ácido málico é produzido por meio de técnicas químicas comuns, nas palavras do autor, é que ele precisa ser chamado de artificial. Schwarcz acha isso um contrasenso. Porque o ácido málico é sempre ácido málico. A molécula é a mesma, a substância é sempre química. Eis a vantagem alegada por ele, portanto, para usar micróbios na produção de alimentos. Sai barato e ainda leva o rótulo de natural.
Vale a pena dar uma olhada no que ele diz sobre outros "naturais" da indústria, e não só no ramo dos alimentos. Fica claro que essa palavra tem sido usada a torto e a direito sem que o significado dela seja real. Por exemplo, alguém pode me dizer o que raios quer dizer "sanduíche natural"?
Bem, no capítulo "Goela abaixo", para o qual pulei direto por tratar da química dos alimentos, ele fala do papel de certos micróbios na produção de certos produtos. E parte do exemplo da, de novo, maçã. Schwarcz nos apresenta o ácido málico, uma substância QUÍMICA presente NATUALMENTE nas maçãs. É essa substância que dá o tom mais forte do sabor dessa fruta, incluindo a acidez. A indústria de alimentos precisa do ácido málico para fabricar sucos, biscoitos e outras coisas com sabor de maçã. Como ela consegue isso é o que eu sempre quis saber. Bem, vamos por partes.
Se o ácido málico que irá para o suco de caixinha puder ser extraído diretamente de maçãs de verdade, o rótulo do produto poderá trazer a alegação "sabor natural de maçã". Mas essa não é uma opção muito viável, porque o processo de extração do ácido málico das frutas é muito caro e nada prático. Imagine quanto custaria um litro desse suco.
A indústria costuma tirar o ácido málico de um meio de produção mais barato: fungos. O fungo Rhizopus nigricans trabalha de graça para a indústria se receber glicose em troca. Bem alimentado com glicose, o fungo fabrica ácido málico como resíduo metabólico. E de onde a indústria tira a glicose? Compra no mercado? Não. Pega de outro fungo, o Aspergillus niger, em troca de amido, que é fácil e barato de conseguir. O suco feito com esse ácido málico vindo da "barriga" do fungo ainda pode ser rotulado como natural. E por quê? Só porque fungos são seres naturais. Não interessa se a indústria usou tecnologia, máquinas e linhas de produção. Ela tem, pela legislação, o direito de rotular dessa maneira.
Só quando o ácido málico é produzido por meio de técnicas químicas comuns, nas palavras do autor, é que ele precisa ser chamado de artificial. Schwarcz acha isso um contrasenso. Porque o ácido málico é sempre ácido málico. A molécula é a mesma, a substância é sempre química. Eis a vantagem alegada por ele, portanto, para usar micróbios na produção de alimentos. Sai barato e ainda leva o rótulo de natural.
Vale a pena dar uma olhada no que ele diz sobre outros "naturais" da indústria, e não só no ramo dos alimentos. Fica claro que essa palavra tem sido usada a torto e a direito sem que o significado dela seja real. Por exemplo, alguém pode me dizer o que raios quer dizer "sanduíche natural"?
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