Na coluna do dia
26 de agosto,
escrevi sobre os exercícios pliométricos que eu faria durante um mês na
academia do Grupo Pão de Açúcar, proposto pelo educador físico Irineu
Loturco. Minha intenção era conhecer novas maneiras de fortalecer
músculos e ossos e assim adiar o processo de envelhecimento. A de
Loturco era me mostrar que o tipo de força que eu desenvolveria ali me
tornaria não só forte, mas também mais rápida e protegida contra
fraturas e outras lesões. O treinamento começou naquela mesma semana e
terminou na semana passada, com um total de 12 sessões. Chegou a hora de
contar como foi e o que eu ganhei com isso.
No
dia 24 de agosto, uma segunda-feira, algumas de minhas capacidades
físicas foram medidas com a ajuda de equipamentos. Foram quatro testes.
No primeiro, eu deveria correr 15 metros, o mais rápido que pudesse.
Devo dizer que não tinha noção da postura correta para largar nem
correr, pois nunca treinei para correr em velocidade. Depois das
gincanas de que participei na infância, acho que nunca mais apostei
corrida. Era um experimento sem nenhum resultado esperado, portanto.
Ninguém ali, nem eu nem o treinador, podia prever como eu iria correr.
Mas a proposta era avaliar meu estágio inicial, fosse qual fosse.
Depois de um aquecimento específico de dez minutos, com trote,
saltitos e variações do mesmo tema, estava pronta para o possível
vexame. Dois sensores iguais aos usados nos jogos olímpicos, instalados
num corredor dentro do prédio onde fica a academia, captariam o momento
da partida e da chegada. Me posicionei e larguei. Acho que repeti o tiro
três vezes. E minha maior velocidade, registrada pelo computador
portátil conectado aos sensores, foi de 5,5 metros por segundo.
Na última sexta-feira, 25 de setembro, repeti o teste. E
consegui correr a 6,5 metros por segundo, uma velocidade 18% maior que a
primeira. Ao que parece, fiquei mais rápida.
O
segundo teste foi de impulsão vertical. Eu tinha de parar de pé em cima
de uma espécie de tapete com sensores e saltar o mais alto que pudesse,
sem sair do lugar e sem tirar as mãos da cintura. Meu impulso viria de
um curto agachamento. O computador registraria o tempo em que eu ficaria
fora do tapete e calcularia a altura do salto. No primeiro teste, meu
melhor salto foi a 27 centímetros do chão. Um mês depois, subiu para
31,5 centímetros -- um ganho de 17%.
Meu treinador achou que melhorei bastante. E houve vários motivos para isso.
O
primeiro deles é minha genética. Ela provavelmente favorece um ganho
rápido de certas qualidades físicas. Outro motivo pode ter sido minha
alimentação. A nutricionista do Pão de Açúcar me pediu para comer mais
do que estava acostumada (especialmente fontes de carboidratos
complexos, como pão e arroz), pois assim haveria mais nutrientes
disponíveis para aumentar a massa muscular. Com isso, ganhei um quilo - o
que, para mim, faz bem. Também me pediram para, ao longo do mês todo,
dormir bem, beber pouco ou nenhum álcool e não realizar exercícios
concorrentes (ou seja, minha musculação normal foi interrompida nesse
período). Outro fator que deve ter contribuído para esses resultados foi
minha disciplina ao cumprir todas as atividades propostas, sem faltas e
sem preguiça.
E, claro, houve o treinamento.
Durante esse mês todo, Loturco programou minhas aulas como se eu
fosse uma atleta e tivesse uma competição no final. Ele queria que eu
ganhasse principalmente potência para correr rápido e saltar. A gente
sempre começava com os exercícios educativos (logo após o aquecimento na
esteira), que me ensinavam a correr direito. Na esteira e depois no
chão, eu fazia skipping baixo (melhor que eu tentar descrever é você ver
uma demonstração aleatória no
You Tube)
e skipping alto (parecido, mas os joelhos sobem mais). Na esteira,
também fazia uma corrida rápida (comecei com uns 14 no primeiro dia e
nos últimos cheguei a 20 quilômetros por hora) que começava com ela já
em movimento.
Havia um caixote no meio do caminho: pliometria
Depois vinha a tal da pliometria.
Havia um caixote no meio do caminho. Era eu, o chão e um
"caixote" vazado de metal de 15 centímetros de altura. Eu tinha de
saltar do chão para cima do caixote, pisando com os dois pés ao mesmo
tempo, amortecendo a queda com um agachamento e mantendo os pés
afastados na largura do quadril. Ok, aprendi. No terceiro dia, já estava
craque. Aí me puseram um segundo caixote, com o dobro da altura. Eu
tinha de passar do primeiro caixote para o chão e do chão saltar para o
segundo. Essa etapa requereu um pouco mais de concentração, e eu errei
várias repetições. Quando melhorei, me puseram um terceiro caixote,
ainda mais alto. Sim, eu tinha de saltar do chão para o caixote mais
alto logo depois de descer dos outros dois. E o incrível foi que, de
repente, saltar para o segundo caixote ficou muito fácil. Eu já nem me
sentia saltando, mas dando um passo.
Na verdade
houve um percalço nessa etapa. O primeiro salto para o caixote maior me
rendeu uma dor na lombar. Embora eu estivesse fazendo na musculação um
exercício de fortalecimento dessa musculatura, aparentemente ele não
estava sendo suficiente para me proteger em movimentos mais ousados como
aquele. Nas duas semanas seguintes, precisei ter mais cuidado durante o
treino, com especial atenção para a contração abdominal durante todos
os exercícios. E tudo correu bem.
Depois
da pliometria nos caixotes, eu passava para uma máquina conhecida como
Smith ou barra guiada. É uma máquina alta em que uma barra de ferro fica
presa a uma estrutura fixa e desliza para cima e para baixo, seguindo o
comando do corpo. Ali eu fazia agachamentos (flexão e extensão dos
joelhos com a barra nas costas) e supinos (deitada com as costas
apoiadas num banco, erguia a barra com as mãos, usando a força do
peitoral). Agachamento e supino são exercícios muito usados na
musculação. Conforme o objetivo e a condição física de cada pessoa,
usa-se um determinado número de repetições e uma carga (anilhas de ferro
adicionadas à barra) compatível. O meu objetivo ali, estabelecido por
Loturco, era desenvolver potência. Ou seja, ele queria que, ao final das
12 sessões, eu conseguisse erguer uma carga maior do que a inicial e
numa velocidade também maior.
Loturco sempre
usava as leis da física para me explicar sua técnica. E eu tinha de me
lembrar das aulas do colégio. "Força é massa vezes aceleração, certo? Se
você aumenta a massa, tem de reduzir a aceleração." Ele queria dizer
que, toda vez que a gente aumenta a carga, inevitavelmente executa o
movimento mais lentamente. Eu sei disso não porque entendo de física,
mas porque sinto o peso da barra e não aguento erguê-la mais
rapidamente. Mas aí ele reduzia um pouco a carga e me pedia para fazer o
movimento com rapidez. O mais rápido que eu pudesse. Era o outro lado
da lei da física: quanto menor a massa, maior a aceleração.
O que ele queria era que eu conseguisse acelerar o movimento
mesmo quando ele aumentasse a carga. Isso demandava mais força. Ele
aumentava a carga pouco a pouco, a cada série. Os intervalos eram
grandes, de pelo menos dois minutos, para que eu me recuperasse bem.
Assim, de um dia de treino para o outro, eu estava de fato levantando
mais e mais carga, com velocidade. No agachamento, comecei com uma carga
máxima de 47 quilos e terminei com 54,5 quilos (levando em conta o peso
da barra mais as anilhas). No supino, passei de 34,5 quilos para 42,8
quilos.
As cargas e o número de repetições eram
determinados pelo meu progresso. Em algumas sessões de treino, esses
dados eram registrados por um software que calculava minha potência em
cada repetição. Um gráfico podia ser gerado imediatamente após cada
série, já nos mostrando como eu melhorava de uma série para outra.
Quando minha potência começava a cair, o professor mandava parar e
descansar. Parecia tudo muito preciso. Segundo Loturco, limitar o
exercício ao número de repetições que a gente aguenta fazer com
velocidade ajuda a ganhar força mais rápido do que relizar mais
movimentos com mais cansaço.
Foi a primeira vez
que eu treinei com professor particular. Sem esse monitoramento
constante do profissional, que podia observar meu desempenho minuto a
minuto, me parece que a mudança nas cargas e no número de repetições
seria mais improvisada. E, sem os números gerados pelo computador, não
saberíamos tão exatamente quais os meus ganhos.
Na última semana de treino, Loturco fez uma alteração considerável nesse
desafio. Em vez de apenas erguer a barra (com a força dos glúteos e
membros inferiores no caso do agachamento e com o peitoral no caso do
supino) rapidamente, eu deveria lançá-la para o alto, sem freá-la,
deixando que ela voltasse à posição inicial apenas pela ação da
gravidade. No agachamento, isso significava saltar para cima e tirar os
pés do chão com a barra pesada nas costas. No supino, eu soltava as mãos
da barra ao estender os cotovelos e a recebia de volta, amortecendo a
queda com a flexão dos cotovelos. Esse lançar da barra sem freio servia
para eu usar uma aceleração ainda maior com a carga pesada.
Dava um pouco de medo do impacto a que eu estava submetendo
minhas articulações. Eu tinha de prender muito o abdome, sempre, e
flexionar joelhos e cotovelos numa medida segura. Impacto pode ser bom
ou ruim, depende do quanto o corpo está preparado para recebê-lo. De
pouquinho em pouquinho, o impacto causa pequenas (e bem-vindas) lesões
nos músculos e ossos e induz o organismo a "remendar" essas microlesões
com mais massa muscular e óssea. É assim que músculos e ossos se
fortalecem. Mas, quando o impacto é demais, pode acontecer uma lesão não
bem-vinda, como a que virou dor na minha lombar por quase duas semanas.
Pode ser que mais saltos sejam bem-vindos no meu dia a dia, para que eu
ganhe mais densidade muscular e óssea. Mas já aprendi que, para isso,
precisarei caprichar mais no fortalecimento de músculos protetores das
articulações mais vulneráveis, como joelhos e coluna.
De acordo com os dados no notebook, Loturco me disse que eu passei
de 164 watts de potência no agachamento na primeira semana para 210
watts no teste final (aumento de 28%), e de 132 watts para 182 watts no
supino (aumento de 38%). Com esses resultados, disse ele, eu poderia me
considerar mais preparada para competir numa prova esportiva, como por
exemplo uma corrida de cem metros. Caso eu fosse uma atleta.
Perguntei se era possível que alguém não melhorasse em nada com
um treinamento desse. A resposta foi que sempre há um ganho. Segundo
Loturco, os meus resultados até passaram um pouco a média que estudos
com atletas mostraram. Não por ter mais aptidão. Ele desconfia que o
motivo seja justamente o fato de eu não ser atleta. Porque estímulos
novos num corpo destreinado geram resultados rápidos mesmo, mais do que
em corpos treinados. Ele me disse que, se eu fosse uma gordinha
sedentária, seria muito mais fácil apresentar ganhos de força. Mas, como
eu já fazia exercícios de força antes, melhorar minha musculatura era
um desafio maior.
A olho nu, eu não diria que
mudei. A fita métrica e a balança mostraram um pequeno ganho de peso e
de centímetros, principalmente nas coxas, mas também na cintura, o que
me leva a crer que a dieta de comer pra caramba deu resultado. Também
não vou aproveitar a potência que ganhei, porque não pratico nenhum
esporte que requeira potência. Mas gostei do experimento. Gostei de
saber que meu corpo pode ganhar qualidades rapidamente, se eu usar os
estímulos certos. Gostei de saber que posso saltar e talvez apostar
corrida com chances de ganhar, dependendo do adversário. Ainda ter muito
que aprender sobre si mesmo é uma certeza confortante.
(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)