Pela primeira vez, um estudo sistemático examinou em que medida as corporações de alimentos estão comprometidas com a nutrição de seus consumidores. Divulgado em 12 de março, o relatório da Access to Nutrition Index (ATNI) – uma iniciativa da Aliança Global para Nutrição Aprimorada (Gain, na sigla em inglês), da Fundação Bill e Melinda Gates e do Welcome Trust – mostra que a “Big Food”, como é conhecido o grupo das grandes multinacionais de alimentos, está falhando nesse quesito. Das 25 maiores empresas do mundo avaliadas, a maioria mostrou resultados insatisfatórios (mais na reportagem “Em Fogo Alto”, edição 70).
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10 de abr. de 2013
27 de mar. de 2013
Nestlé e Mars globais assumem novos compromissos sociais
Reproduzo aqui nota de imprensa divulgada pela Oxfam ontem:
Nesta terça-feira, exatamente um
mês após o lançamento da campanha Por Trás das Marcas, da ONG Oxfam, as
empresas Nestlé e Mars se comprometeram publicamente a mudar suas políticas e
ações. Após o engajamento de mais de 65 mil pessoas, as empresas divulgaram
metas para melhorar a condição de trabalho das mulheres envolvidas na produção
do cacau utilizado em sua cadeia de produção.
Nestlé e Mars, que juntas
controlam 27% do mercado global de chocolate, foram alvo da petição criada pela
Oxfam para pedir mais responsabilidade com as produtoras de cacau. Nesta terça,
as empresas se comprometeram a:
20 de mar. de 2013
O que a mídia não diz sobre sua saúde
Para proteger seus patrocínios, a imprensa omite informações importantes
Nada contra as revistas, os programas de TV e agora os canais de conteúdo das empresas no Facebook darem dicas de saúde pautadas nas atitudes individuais. Eu vivo dando as minhas. O problema é fingir que é só das escolhas, atitudes e comportamentos individuais que depende a saúde das pessoas. Não é.
28 de fev. de 2013
Como forçar a indústria de alimentos a fazer o bem
Por Trás das Marcas: Campanha pede que as maiores marcas de alimentos melhorem suas políticas sociais
Saiu nesta terça-feira, 26 de fevereiro, um relatório enorme mostrando as fraquezas das políticas sociais das dez maiores marcas de alimentos do mundo. O resultado da extensa pesquisa realizada pela Oxfam, ONG internacional que combate a insegurança alimentar, foi que Nestlé, Unilever, Pepsico, Associated British Foods, Coca-Cola, Danone, General Mills, Kellogg's, Mars e Mondelez não estão tomando conta direito do que acontece com a terra, a água e os trabalhadores que plantam e fabricam seus produtos.
Nesta fase da campanha Por Trás das Marcas, que terá continuidade, o que está sendo avaliado não são os impactos socioambientais das empresas, mas sim os cuidados que elas tomam para controlar esses impactos. Todas elas já se comprometeram publicamente, por meio de documentos, a reduzir seus impactos socioambientais. O que a Oxfam fez foi verificar em que medida as empresas estão trabalhando para cumprir o que prometeram.
1 de mai. de 2012
Dinheiro privado não entra
O World Nutrition foi o primeiro congresso do setor a vetar a participação da indústria de alimentos
Esse foi o maior orgulho dos participantes do World Nutrition Rio 2012. Foram cinco dias de palestras, oficinas, debates e propostas sem a presença de estandes ou representantes da indústria de alimentos (a não ser, talvez, alguns espiões). O evento foi quase todo bancado por instituições governamentais ou sem fins lucrativos e não precisou do patrocínio de marcas de refrigerante e outros tipos de produtos inadequados a uma dieta saudável, muito comuns em eventos científicos que debatem os problemas nutricionais da população.
26 de abr. de 2012
14 de fev. de 2012
Comida ou truque ilusionista?
Com a ajuda do trabalho de gente talentosa, talvez como você, a indústria vicia o mundo em junk food
Tweetar
Numa ótima reportagem do programa 60 Minutos, da americana CBS News, um jornalista veterano vai conhecer de perto a indústria de aromas e sabores aplicados em alimentos processados. As imagens mostram os inúmeros vidrinhos de "perfume comestível" desenvolvidos em laboratório por pesquisadores especializados em farejar e copiar aromas encontrados em frutas, carnes e outros alimentos da natureza.
Tweetar
Numa ótima reportagem do programa 60 Minutos, da americana CBS News, um jornalista veterano vai conhecer de perto a indústria de aromas e sabores aplicados em alimentos processados. As imagens mostram os inúmeros vidrinhos de "perfume comestível" desenvolvidos em laboratório por pesquisadores especializados em farejar e copiar aromas encontrados em frutas, carnes e outros alimentos da natureza.
9 de jan. de 2012
Quem é o dono da verdade na orientação nutricional?
Em quem confiar quando o assunto é seguir dicas do que deveríamos comer?
Está rolando uma disputa de credibilidade entre as autoridades de saúde ou é impressão minha?
Em junho, conforme postado aqui, o governo americano lançou o My Plate, uma figura que se propunha a substituir a conhecida pirâmide alimentar e esclarecer de uma vez por todas para a população americana - e do mundo - como é que se faz uma alimentação saudável.
Em setembro (sorry, só fiquei sabendo hoje - mas antes tarde do que nunca), um pessoal de Harvard resolveu dar sua opinião (desfavorável) sobre o My Plate, criando um outro modelito de ilustração educativa, que eles chamaram de Healthy Eating Plate. Junto com as devidas explicações do que significa cada parte do desenho, os caras de Harvard desceram a lenha no My Plate do governo, sugerindo que este tinha sido muito leniente com o lobby da indústria de alimentos.
Está rolando uma disputa de credibilidade entre as autoridades de saúde ou é impressão minha?
Em junho, conforme postado aqui, o governo americano lançou o My Plate, uma figura que se propunha a substituir a conhecida pirâmide alimentar e esclarecer de uma vez por todas para a população americana - e do mundo - como é que se faz uma alimentação saudável.
Em setembro (sorry, só fiquei sabendo hoje - mas antes tarde do que nunca), um pessoal de Harvard resolveu dar sua opinião (desfavorável) sobre o My Plate, criando um outro modelito de ilustração educativa, que eles chamaram de Healthy Eating Plate. Junto com as devidas explicações do que significa cada parte do desenho, os caras de Harvard desceram a lenha no My Plate do governo, sugerindo que este tinha sido muito leniente com o lobby da indústria de alimentos.
21 de set. de 2011
A mesma comida, 6 interesses distintos
De
acordo com pesquisas de mercado, os consumidores de alimentos saudáveis não estão
todos em busca do mesmo benefício
Agora entendi por que meu namorado não se
tornou tão natureba quanto eu, mesmo depois de ter se convertido ao consumo
mais frequente de saladas, arroz integral e granola, sob minha influência. É
que, de acordo com os seis perfis de consumidores indentificados nas pesquisas
da Health Focus International, eu sou uma discípula, e ele é um investidor.
23 de jun. de 2011
Concorrentes de mentirinha
Que marca escolher quando as opções
pertencem à mesma empresa?
Não tenho o costume de comprar manteiga,
mas no último domingo resolvi trazer uma para casa, inspirada pelos ótimos
risotos multigrãos com legumes que meu namorado inventa. Não tenho uma marca
preferida de manteiga, até porque manteiga costuma ser mais ou menos tudo
igual, já que é feita meramente de creme de leite pasteurizado com sal. Pra
escolher requeijão, sim, tenho critérios mais precisos, pois os requeijões
parecem ser feitos cada vez mais de ingredientes novos.
(No caso do requeijão, vejo principalmente
o número de ingredientes e o tempo de prateleira. O número de ingredientes me
indica a quantidade de porcarias adicionadas ao que interessa no produto. O
ideal é que esse número seja o mais próximo possível de 4, pois creme de leite,
fermento lácteo, coalho e sal deveriam ser suficientes para fazer um requeijão
decente. O resto é encheção de linguiça pra baratear o custo de fabricação. Já
o tempo de prateleira me indica se há ou não excesso de conservantes. Quanto
maior a distância entre a data de fabricação e a data de validade, subentendo
que será maior a quantidade de conservantes no requeijão. Esses critérios,
aliás, me fizeram deixar de ser fiel a uma marca de que eu gostava muito na
infância.)
Então, diante das várias opções de
manteigas aparentemente iguais no supermercado, parei diante de duas com preço
parecido e que estavam lado a lado: Batavo e Elegê. A diferença de preço era de
cinco centavos. Olhei os ingredientes: exatamente os mesmos nas duas marcas. E
aí reparei num outro dado comum nas duas: o endereço da fábrica. Então as duas
manteigas tinham origem na mesma fazenda? Sim. E não só isso. As duas marcas
pertencem à mesma empresa e, ao contrário do que me pareceu no primeiro
momento, não são concorrentes.
12 de mai. de 2011
Liberdade de escolha?
Não se iluda. Quem decide o que você vai comprar é o mercado
Esta semana, quatro pavilhões da Expo Center Norte estão ocupados pela feira da Apas (Associação Paulista de Supermercados). A feira é gigante, e está lotada de homens de terno e gravata querendo fazer negócios. Todas as grandes marcas de produtos vendidos em supermercados estão lá, expondo novidades. Há também empresas que fornecem sistemas e outras soluções para o varejo. Até bancos participam da feira. Acho que nunca vi tanto poder reunido num lugar só. Paralelamente à feira, há palestras com brasileiros e estrangeiros, entre eles o Ronaldo Fenômeno. Tudo na intenção de tornar o varejo ainda mais bem-sucedido.
Segundo uma palestrante que falou na terça, os supermercados estão ficando tão poderosos quanto as marcas dos produtos que eles vendem. Na análise da americana Natalie Berg, diretora de pesquisa da Natalie Berg Global, quando as lojas eram pequenas e locais, funcionavam como caixas onde os produtos das grandes marcas eram expostos ao consumidor final. Ou seja, não tinham muita importância na escolha dos consumidores. Hoje, num mercado dominado por grandes redes varejistas (Wal Mart, Carrefour, Pão de Açúcar), o varejo pode até decidir não vender mais uma determinada marca, se achar que ela não está de acordo com os seus valores.
Esta semana, quatro pavilhões da Expo Center Norte estão ocupados pela feira da Apas (Associação Paulista de Supermercados). A feira é gigante, e está lotada de homens de terno e gravata querendo fazer negócios. Todas as grandes marcas de produtos vendidos em supermercados estão lá, expondo novidades. Há também empresas que fornecem sistemas e outras soluções para o varejo. Até bancos participam da feira. Acho que nunca vi tanto poder reunido num lugar só. Paralelamente à feira, há palestras com brasileiros e estrangeiros, entre eles o Ronaldo Fenômeno. Tudo na intenção de tornar o varejo ainda mais bem-sucedido.
Segundo uma palestrante que falou na terça, os supermercados estão ficando tão poderosos quanto as marcas dos produtos que eles vendem. Na análise da americana Natalie Berg, diretora de pesquisa da Natalie Berg Global, quando as lojas eram pequenas e locais, funcionavam como caixas onde os produtos das grandes marcas eram expostos ao consumidor final. Ou seja, não tinham muita importância na escolha dos consumidores. Hoje, num mercado dominado por grandes redes varejistas (Wal Mart, Carrefour, Pão de Açúcar), o varejo pode até decidir não vender mais uma determinada marca, se achar que ela não está de acordo com os seus valores.
14 de abr. de 2011
Digite o nome do produto e descubra se ele presta
Como o GoodGuide, um serviço gratuito de comparação de produtos,
pretende forçar os fabricantes a ser mais transparentes com os
consumidores
Esta semana conversei com o pessoal do GoodGuide, um site americano que avalia e compara, gratuitamente, três aspectos da qualidade dos produtos que normalmente o consumidor não consegue avaliar sozinho. Eles avaliam os mais diversos tipos de produtos, de biscoitos a desinfetantes, passando por papinhas de bebê. A partir das informações na embalagem e de algumas pesquisas feitas por terceiros, eles pontuam em que medida cada produto afeta nossa saúde, o meio ambiente e o bem-estar social.
Para saber o que o sistema “pensa” de um produto, basta digitar o nome desse produto no campo de busca do site, ou mesmo no Google. Ou então procurá-lo dentro de sua categoria num dos menus da página inicial. Se o produto estiver cadastrado no GoodGuide, a foto dele aparecerá ao lado de três notas, que correspondem a quão bom ou quão ruim ele é nesses três aspectos que mencionei acima. No caso dos alimentos, ele dá as notas mais altas aos itens mais saudáveis e discrimina os alimentos inegavelmente piores para a saúde. O sistema também faz comparações ótimas dentro de cada categoria de produto e fornece listas do tipo “as piores opções para o café da manhã”, que é para não ter dúvida, por exemplo, de que tipo de pedido do seu filho você deveria recusar prontamente.
Esta semana conversei com o pessoal do GoodGuide, um site americano que avalia e compara, gratuitamente, três aspectos da qualidade dos produtos que normalmente o consumidor não consegue avaliar sozinho. Eles avaliam os mais diversos tipos de produtos, de biscoitos a desinfetantes, passando por papinhas de bebê. A partir das informações na embalagem e de algumas pesquisas feitas por terceiros, eles pontuam em que medida cada produto afeta nossa saúde, o meio ambiente e o bem-estar social.
Para saber o que o sistema “pensa” de um produto, basta digitar o nome desse produto no campo de busca do site, ou mesmo no Google. Ou então procurá-lo dentro de sua categoria num dos menus da página inicial. Se o produto estiver cadastrado no GoodGuide, a foto dele aparecerá ao lado de três notas, que correspondem a quão bom ou quão ruim ele é nesses três aspectos que mencionei acima. No caso dos alimentos, ele dá as notas mais altas aos itens mais saudáveis e discrimina os alimentos inegavelmente piores para a saúde. O sistema também faz comparações ótimas dentro de cada categoria de produto e fornece listas do tipo “as piores opções para o café da manhã”, que é para não ter dúvida, por exemplo, de que tipo de pedido do seu filho você deveria recusar prontamente.
29 de out. de 2009
Embalagens transparentes?
Qual a diferença entre informação e
propaganda? É isso que todos nós precisamos saber ao entrar num
supermercado. Nos últimos anos, a quantidade de informação disponível
sobre os alimentos tem aumentado, disputando espaço com a propaganda e
também se misturando com ela. Palavras como "saudável", "vitaminado" ou
"nutritivo", antes rapidamente entendidas como virtudes, passaram a ser
lidas e ouvidas com mais senso crítico. O consumidor mais bem informado
passou a querer entender melhor o que precisava haver nos produtos para
que merecêssem - ou não - adjetivos como esses. Será que é saudável
mesmo? Tem vitamina suficiente? E então veio o poder público exigir que
os fabricantes dessem ao consumidor um tipo de informação que antes
ninguém tinha: a lista completa de ingredientes e a tabela nutricional
de seus produtos.
Um conjunto de resoluções e portarias criadas no Ministério da Saúde na última década e fiscalizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária determina quais informações devem aparecer no rótulo de cada tipo de produto alimentício. As informações obrigatórias são as que fazem diferença para a saúde das pessoas, como por exemplo a quantidade de carboidrato num produto que poderá ser perigoso para diabéticos. Outra atribuição da legislação de alimentos tem sido restringir o tipo de mensagem que pode aparecer nas embalagens, a fim de evitar que o consumidor seja enganado ou se confunda. As alegações "saudável", "vitaminado" e "nutritivo" já não podem ser incluídas no rótulo sem mais nem menos. Hoje, por lei, tudo que está escrito nas embalagens deve ser verdade. Agora, há palavras certas a usar e tudo que for alegado deve estar de acordo com a tabela nutricional. E com a legislação.
A boa intenção do governo com essa legislação é que os consumidores tirem sozinhos as suas conclusões ao ler as tabelas nutricionais. Seria bárbaro se todo mundo conseguisse interpretar todos aqueles números e decidisse sua compra com base em um conhecimento adquirido por meio dos rótulos. Acontece que, por mais científica que essa informação hoje disponível possa ser, ela nem sempre nos ajuda mais do que a propaganda a fazer as escolhas certas.
Aconteceu comigo pouco tempo atrás. Tinha parado definitivamente de tomar leite de vaca e precisava obter cálcio de outros alimentos. Meu médico havia sugerido tomar leite de soja enriquecido, pois os comuns não têm cálcio. Então eu procuraria a marca que me oferecesse a maior quantidade de cálcio por porção.
Encontrei poucas opções no mercado. Duas delas, do mesmo fabricante. Comparei as embalagens. Os dois produtos tinham o mesmo nome e algumas diferenças gráficas na embalagem, mas eram ambos leite de soja enriquecido. Comparei as duas tabelas nutricionais. Uma delas dizia haver 300 miligramas de cálcio em cada 30 gramas de produto, o que equivalia a 30% das necessidades diárias. A outra versão dizia haver 241 miligramas de cálcio em cada 26 gramas de produto, o que equivalia a 40% das necessidades diárias.
Espere aí, pensei. Como era possível? Como uma quantidade menor de cálcio poderia equivaler a um percentual maior das minhas necessidades diárias? Havia algo de errado ali, imaginei. Ou aquele rótulo estava mentindo, ou alguma informação estava faltando.
Minha hipótese não era que o fabricante mentira -- mentir seria cara de pau demais em tempos de legislação tão rígida. Minha suspeita era que o produto com 241 miligramas de cálcio na porção de 26 gramas trazia no rótulo uma tabela nutricional baseada numa dieta infantil. Afinal, segundo o que eu já havia apurado no meu trabalho, as crianças precisam de menos cálcio do que os adultos. Só isso poderia justificar que menos significasse mais.
Acontece que na embalagem daquele produto supostamente infantil não havia nada, absolutamente nada, que sugerisse que ele deveria ser consumido por crianças e não adultos. Nem uma frase, nem um desenho, nada.
Sem comprar nenhum dos dois, anotei o telefone do SAC para telefonar depois. E, mais tarde, consegui falar com a nutricionista da empresa, que me tirou a teima. De fato, como eu havia deduzido, o leite de soja com menos cálcio era um produto mais adequado para crianças do que para adultos e por isso a tabela nutricional se referia a uma dieta infantil. Mas então por que não avisam isso no rótulo, poxa vida? O motivo, me explicou ela, é que a legislação nova não exige essa informação.
Há pouco tempo, esse mesmo leite de soja com menos cálcio trazia bonequinhos desenhados perto do logotipo, indicando o público-alvo. Não pode mais. A nova legislação proibiu os fabricantes de apelarem para personagens fofinhos como argumento para vender para as crianças. A intenção era boa. Pretendia-se evitar que crianças inocentes e mal informadas fossem seduzidas por propagandas e alegações falsas e induzidas a consumir alimentos nutricionalmente inadequados. De fato, a sedução indecente de menores precisava mesmo de um freio. Mas nem tudo que sorri na embalagem é propaganda enganosa.
Tudo que é mentira merece ser desmascarado. Tudo que é verdade merece ser escancarado. O problema é não colocarem nada no lugar da propaganda e deixarem lá um buraco, um vazio, uma ausência de informação, numa aposta de que o consumidor vai entender tudo sozinho mesmo sem ter feito faculdade de nutrição, mesmo nem tendo terminado o ensino fundamental. É para criança ou não é? Serve para mim ou não serve? Fica mais fácil entender quando a informação vem numa embalagem mais compreensível. Isso, sim, é honestidade com o consumidor.
(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)
Um conjunto de resoluções e portarias criadas no Ministério da Saúde na última década e fiscalizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária determina quais informações devem aparecer no rótulo de cada tipo de produto alimentício. As informações obrigatórias são as que fazem diferença para a saúde das pessoas, como por exemplo a quantidade de carboidrato num produto que poderá ser perigoso para diabéticos. Outra atribuição da legislação de alimentos tem sido restringir o tipo de mensagem que pode aparecer nas embalagens, a fim de evitar que o consumidor seja enganado ou se confunda. As alegações "saudável", "vitaminado" e "nutritivo" já não podem ser incluídas no rótulo sem mais nem menos. Hoje, por lei, tudo que está escrito nas embalagens deve ser verdade. Agora, há palavras certas a usar e tudo que for alegado deve estar de acordo com a tabela nutricional. E com a legislação.
A boa intenção do governo com essa legislação é que os consumidores tirem sozinhos as suas conclusões ao ler as tabelas nutricionais. Seria bárbaro se todo mundo conseguisse interpretar todos aqueles números e decidisse sua compra com base em um conhecimento adquirido por meio dos rótulos. Acontece que, por mais científica que essa informação hoje disponível possa ser, ela nem sempre nos ajuda mais do que a propaganda a fazer as escolhas certas.
Aconteceu comigo pouco tempo atrás. Tinha parado definitivamente de tomar leite de vaca e precisava obter cálcio de outros alimentos. Meu médico havia sugerido tomar leite de soja enriquecido, pois os comuns não têm cálcio. Então eu procuraria a marca que me oferecesse a maior quantidade de cálcio por porção.
Encontrei poucas opções no mercado. Duas delas, do mesmo fabricante. Comparei as embalagens. Os dois produtos tinham o mesmo nome e algumas diferenças gráficas na embalagem, mas eram ambos leite de soja enriquecido. Comparei as duas tabelas nutricionais. Uma delas dizia haver 300 miligramas de cálcio em cada 30 gramas de produto, o que equivalia a 30% das necessidades diárias. A outra versão dizia haver 241 miligramas de cálcio em cada 26 gramas de produto, o que equivalia a 40% das necessidades diárias.
Espere aí, pensei. Como era possível? Como uma quantidade menor de cálcio poderia equivaler a um percentual maior das minhas necessidades diárias? Havia algo de errado ali, imaginei. Ou aquele rótulo estava mentindo, ou alguma informação estava faltando.
Minha hipótese não era que o fabricante mentira -- mentir seria cara de pau demais em tempos de legislação tão rígida. Minha suspeita era que o produto com 241 miligramas de cálcio na porção de 26 gramas trazia no rótulo uma tabela nutricional baseada numa dieta infantil. Afinal, segundo o que eu já havia apurado no meu trabalho, as crianças precisam de menos cálcio do que os adultos. Só isso poderia justificar que menos significasse mais.
Acontece que na embalagem daquele produto supostamente infantil não havia nada, absolutamente nada, que sugerisse que ele deveria ser consumido por crianças e não adultos. Nem uma frase, nem um desenho, nada.
Sem comprar nenhum dos dois, anotei o telefone do SAC para telefonar depois. E, mais tarde, consegui falar com a nutricionista da empresa, que me tirou a teima. De fato, como eu havia deduzido, o leite de soja com menos cálcio era um produto mais adequado para crianças do que para adultos e por isso a tabela nutricional se referia a uma dieta infantil. Mas então por que não avisam isso no rótulo, poxa vida? O motivo, me explicou ela, é que a legislação nova não exige essa informação.
Há pouco tempo, esse mesmo leite de soja com menos cálcio trazia bonequinhos desenhados perto do logotipo, indicando o público-alvo. Não pode mais. A nova legislação proibiu os fabricantes de apelarem para personagens fofinhos como argumento para vender para as crianças. A intenção era boa. Pretendia-se evitar que crianças inocentes e mal informadas fossem seduzidas por propagandas e alegações falsas e induzidas a consumir alimentos nutricionalmente inadequados. De fato, a sedução indecente de menores precisava mesmo de um freio. Mas nem tudo que sorri na embalagem é propaganda enganosa.
Tudo que é mentira merece ser desmascarado. Tudo que é verdade merece ser escancarado. O problema é não colocarem nada no lugar da propaganda e deixarem lá um buraco, um vazio, uma ausência de informação, numa aposta de que o consumidor vai entender tudo sozinho mesmo sem ter feito faculdade de nutrição, mesmo nem tendo terminado o ensino fundamental. É para criança ou não é? Serve para mim ou não serve? Fica mais fácil entender quando a informação vem numa embalagem mais compreensível. Isso, sim, é honestidade com o consumidor.
(Originalmente publicado em www.epoca.com.br)
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